O que é este blog?

Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

domingo, 30 de setembro de 2012

Mudanca na Estrategia Brasileira de Comercio - Rubens Ricupero


Recuo no comércio: estratégia ou tática?

Rubens Ricupero
Folha de São Paulo, segunda feira 1/10/2012, p. A-15

      Ninguém notou a mais importante mudança da política externa da presidente Dilma em relação ao governo Lula: o abandono das negociações da Rodada Doha da Organização Mundial de Comércio (OMC).
Não é que se tenha anunciado isso de modo formal. Mas, ao aumentar as tarifas de uma centena de produtos, o governo sinalizou que no fundo já não acredita mais na possibilidade de conclusão da Rodada. Com efeito, a fim de ganhar algo nas negociações, o Brasil precisaria não só se abster de agravar a proteção, mas teria de efetuar reduções adicionais significativas nas tarifas de manufaturas.
Era o que o governo Lula havia aceito em julho de 2008 quando, junto com a Europa, fomos os protagonistas da última tentativa séria de garantir o êxito da Rodada, abortada pela recusa simétrica dos EUA, de um lado e da Índia e China, do outro.
Desde então nos retraímos e agora ingressamos em zona controvertida: praticamente voltamos as costas à estratégia de dar prioridade às negociações multilaterais da OMC, seguida por todos os governos brasileiros das décadas recentes. No governo Lula, a posição de privilegiar a OMC a fim de obter ganhos em agricultura se tornou uma das razões principais do prestígio e da credibilidade conquistadas pelo país nos foros internacionais.
Por que então a mudança súbita? Não se trata obviamente de capricho ou ideologia. A explicação é que a crise de competitividade, sobretudo da indústria, atingiu seu ponto crítico. O Brasil perdeu a capacidade de negociar acordos comerciais, multilaterais ou de qualquer tipo. Como viabilizar acordos que exigem concessões se essas vão expor ainda mais setores que mal se mantêm de pé apesar de doses maciças de anabolizantes?
É por isso que se supõe que o retrocesso (pois é disso que se trata) seja de ordem tática. Isto é, que se destina a ganhar tempo para que se recupere a competitividade. De nada serve pretender que não é protecionismo e sim medidas de defesa comercial. Essas últimas – antidumping, taxas compensatórias, salvaguardas – só podem ser aplicadas mediante processo regulamentado pela OMC. A ação brasileira não foi ilegal, mas teve caráter unilateral, não obedeceu ao formato das medidas de defesa e certamente violou o compromisso adotado pelos membros do G20 no sentido de não agravarem o nível de proteção.
Falta autoridade moral a Washington para protestar, pois a administração Obama deve ser o governo americano com menor contribuição à liberalização do comércio mundial de que se tem memória. Porém, o ponto não é esse. Se o governo brasileiro entendeu que não tinha alternativa do que dar esse grave passo, certamente o terá feito por dispor de estratégia coerente. Estratégia não só para melhorar as condições de competitividade, como começou a fazer parcialmente com redução de juros, correção do câmbio e anúncios sobre custo da eletricidade e melhoria de infraestrutura.
Se o esforço der certo, ainda será necessário ao Brasil ampliar seus mercados. Ao abrir, para isso, mão da OMC, só nos sobra o combalido Mercosul, que não convence ninguém como estratégia global. Será que temos efetivamente essa estratégia? 

O Homem: um animal suicidario - Jared Diamond


Frédéric Joignot
Le Monde29 Septembre 2012

Il habite à Bel Air, quartier très chic aux jardins luxuriants de Los Angeles, dans une grande maison de bois pleine de gravures animalières. Avec son imposant collier de barbe, ses 74 ans, il fait penser à un vieux prêcheur amish. L'homme en impose. Il faut dire que ce professeur de géographie de l'UCLA, la vénérable université de la "cité des anges", biologiste évolutionniste réputé, fait à nouveau parler de lui après l'échec du Sommet de la Terre, cet été, à Rio, où aucune mesure n'a été prise pourrendre notre planète plus durable.

Depuis, beaucoup se demandent si Jared Diamond n'a pas raison. Si l'humanité ne court pas au désastre écologique, danger contre lequel il nous a mis en garde dans son essai Effondrement (2005). Dans ce best-seller mondial, âprement discuté par l'élite scientifique, il montre comment, à plusieurs reprises, les destructions de notre environnement ont contribué à l'écroulement de sociétés. L'auteur va même jusqu'àparler d'"écocide" : le génocide écologique. Si certains critiquent son catastrophisme, Diamond donne des conférences dans le monde entier, appelant l'humanité à se ressaisir.
DURABILITÉ ET AUTODESTRUCTION
Le sommet de Rio a montré qu'avec la crise économique les exigences écologiques passent au second plan. On vient pourtant d'apprendre – un exemple parmi d'autres – que la banquise arctique risque de fondre avant 2020, que les glaciers du Groenland sont menacés, ce qui va accélérer encore le réchauffement etbouleverser la circulation des eaux océaniques. Sommes-nous entrés dans un des scénarios tragiques décrits par Jared Diamond dans Effondrement ? Il nous répond : "L'humanité est engagée dans une course entre deux attelages. L'attelage de la durabilité et celui de l'autodestruction. Aujourd'hui, les chevaux courent à peu près à la même vitesse, et personne ne sait qui va l'emporter. Mais nous saurons bien avant 2061, quand mes enfants auront atteint mon âge, qui est le gagnant."
Si Jared Diamond est tellement écouté, discuté et contesté, c'est parce qu'il a bouleversé le récit classique de l'histoire, à travers trois ouvrages colossaux dans lesquels il décrit en détail les rapports conflictuels qu'entretient l'humanité avec la nature depuis 13 000 ans. Avant Effondrement, il y a eu Le troisième chimpanzé(1992), qui décrit les premiers méfaits d'homo sapiens sur la nature et nous imagine un avenir difficile, et De l'inégalité parmi les sociétés (1998), qui montre comment la géographie favorise ou pénalise le développement de civilisations - cette somme lui a valu le prix Pulitzer.
Avec Diamond, il devient impossible de séparer l'aventure humaine de la géographie, de comprendre le développement et le déclin des sociétés sans tenircompte des ressources naturelles des pays, de leur exploitation et de leur dégradation. Ecoutons-le : "On ne peut s'imaginer pourquoi ce ne sont pas les Indiens d'Amérique du Nord qui ont conquis l'Europe avec des caravelles portant mousquets et canons ou pourquoi les Aborigènes australiens n'ont pas dominé l'Asie sans comparer les richesses agricoles de ces régions, les animaux qui y vivent, la lenteur avec laquelle s'est implantée l'agriculture, puis la pensée technicienne et la gestion des ressources."

Ler o resto nestes links: 
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Me, the Greatest? No: this time is different... (Obama)


The New York Times, September 29, 2012

WORKING out of cramped, bare offices in a downtown building here in Washington, President-elect Obama’s economic team spent the final weeks of 2008 trying to assess how bad the economy was. It was during those weeks, according to several members of the team, when they first discussed academic research by the economists Carmen M. Reinhart and Kenneth S. Rogoff that would soon become well known.
Ms. Reinhart and Mr. Rogoff were about to publish a book based on earlier academic papers, arguing that financial crises led to slumps that were longer and deeper than other recessions. Almost inevitably, the economists wrote, policy makers battling a crisis made the mistake of thinking that their crisis would not be as bad as previous ones. The wry title of the book is “This Time Is Different.”
In my interviews with Obama advisers during that time, they emphasized that they knew the history and were determined to avoid repeating it. Yet of course they did repeat it. After successfully preventing another depression, in 2009, they have spent much of the last three years underestimating the economy’s weakness. That weakness, in turn, has become Mr. Obama’s biggest vulnerability, helping cost Democrats control of the House in 2010 and endangering his accomplishments elsewhere.
Entire books and countless articles have taken Mr. Obama to task on the economy, and administration officials have a rebuttal that makes a couple of important points. The Federal Reserve and many private-sector economists were also too optimistic, Obama aides note. And they argue that the Senate would not have passed a much larger stimulus in 2009, given Republican opposition, regardless of the White House’s wishes.
But from these reasonable points, the Obama team then jumps to a larger and more dubious conclusion: that their failure to grasp the severity of the slump has had no real consequences. Even if they had seen the slow recovery coming, they say, they couldn’t have done much about it. When Mr. Obama has been asked about his biggest mistake, he talks about messaging, not policy.
“The mistake of my first term — couple of years — was thinking that this job was just about getting the policy right,” he has said. “The nature of this office is also to tell a story to the American people that gives them a sense of unity and purpose and optimism, especially during tough times.”
We can never know for sure what the past four years would have been like if the administration and the Fed had been more worried about the economy. But my reading of the evidence — and some former Obama aides agree — points strongly to the idea that the misjudging of the downturn did affect policy and ultimately the economy.
Mr. Obama’s biggest mistake as president has not been the story he told the country about the economy. It’s the story he and his advisers told themselves.
The notion of insurance is useful here. Suggesting that Mr. Obama and his aides should have bucked the consensus forecast and decided that a long slump was the most likely outcome smacks of 20/20 hindsight. Yet that wasn’t their only option. They also could have decided that there was a substantial risk of a weak recovery and looked for ways to take out insurance.
By late 2008, the full depth of the crisis was not clear, but enough of it was. A few prominent liberal economists were publicly predicting a long slump, as was Mr. Rogoff, a Republican. The Obama team openly compared its transition to Franklin D. Roosevelt’s and, in private, discussed the Reinhart-Rogoff work.
So why didn’t that work do more to affect the team’s decisions?
There are two main answers. First, the situation was unlike anything any living policy maker had previously experienced, and it was deteriorating quickly. Although officials talked about the Depression, they struggled to treat the downturn as fundamentally different from a big, relatively brief recession.
“The numbers got ramped up,” one former White House official told me, referring to the planned size of the stimulus in late 2008. “But the basic frame did not get altered.” In particular, the administration did not imagine that the economy would still need major help well beyond 2009 and that Congress would not comply.
The second problem was that Mr. Obama and his advisers believed — correctly — that they and the Fed were already responding more aggressively than governments had in past crises. Even before the election, President George W. Bush signed the financial bailout, a decidedly un-Hooveresque policy. The Fed began flooding the economy with money. The Obama administration pushed for the stimulus and, with the Fed, conducted successful stress tests on banks.
Whatever the political debate over these measures, the economic evidence suggests they made a large difference. Analyses by the Congressional Budget Office and other nonpartisan economists have come to this conclusion. Europe, which was less aggressive, has fared worse. And the chronology of the crisis tells the same story.
In 2008 and early 2009, the global economy was deteriorating even more rapidly than in 1929, according to research by Barry Eichengreen and Kevin H. O’Rourke. Global stock prices and trade dropped more sharply. But the policy response this time was vastly different, and by the spring of 2009 — just as the measures were taking effect — the economy stabilized.
In this success came the seeds of future failures. Knowing in late 2008 how much policy help was on the way, Mr. Obama and his economic advisers decided that the disturbing pattern of financial crises was not directly relevant. “In a way, they fell into a ‘This Time Is Different’ trap,” another former White House official said.
A banner headline in The Financial Times in June 2009 pronounced the White House “Upbeat on Economy.” Nine months later, after the recovery had run into new problems, the administration said the economy was on the verge of “escape velocity.”
Even now, the Obama team sometimes suggests that the weak recovery isn’t related to the financial crisis. Some problems, like the rise in oil prices, are not in fact related. Many others, like Europe’s troubles and this country’s still-depressed consumer spending, are.
Imagine if the transition team had instead placed, say, 25 percent odds on a protracted slump. Political advisers like David Axelrod would have immediately understood the consequences. Mr. Obama’s policies would look like a failure during the midterm campaign, and the prospects of winning additional stimulus would dwindle. Which is exactly what happened.
Contemplating this outcome, the new administration would have had urgent reasons to take out insurance policies. For starters, Mr. Obama would indeed have told a different story about the economy. Rather than promising a “recovery summer” in 2010, he and his aides would have cautioned patience. Bill Clinton’s recent Democratic convention speech was a model.
More concretely, the administration would have looked for every possible lever to lift the economy. Despite Republican opposition, such levers existed.
Upon taking office, Mr. Obama could have immediately nominated people to fill the Fed’s seven-member Board of Governors, rather than leaving two openings. Ben S. Bernanke, the chairman, works hard to achieve consensus on the Fed’s policy committee, and in 2010 and 2011 the committee was skewed toward officials predicting — wrongly, we now know — that inflation was a bigger threat than unemployment.
TWO more appointees may well have shifted the debate and caused the Fed to have beenless cautious. After the vacancies were finally filled this year, the Fed took further action.
The administration also could have added provisions to the stimulus bill that depended on the economy’s condition. So long as job growth remained below a certain benchmark, federal aid to states and unemployment benefits could have continued flowing. Crucially, these provisions would not have added much to the bill’s price tag. Because the Congressional Budget Office’s forecast was also too optimistic, the official budget scoring would have assumed that the provisions would have been unlikely to take effect. They would have been insurance.
Perhaps most important, the administration might have taken a different path on housing. With the auto industry and Wall Street, Mr. Obama accepted the political costs that come with bailouts. He rescued arguably undeserving people in exchange for helping the larger economy. With housing, he went the other way, even leaving some available rescue money unspent — at least until last year, when the policy became more aggressive and began to have a bigger effect.
No one of these steps, or several other plausible ones, would have fixed the economy. But just as the rescue programs of early 2009 made a big difference, a more aggressive program stretching beyond 2009 almost certainly would have made a bigger difference. It would have had the potential to smooth out the stop-and-start nature of the recovery, which has sapped consumer and business confidence and become a problem in its own right.
By any measure, Mr. Obama and his team faced a tremendously difficult task. They inherited the worst economy in 70 years, as well as an opposition party that was dedicated to limiting the administration to one term and that fought attempts at additional action in 2010 and 2011. And the administration can rightly claim to have performed better than many other governments around the world.
But their claim on having done as well as could reasonably have been expected — to have avoided major mistakes — is hard to accept. They considered the possibility of a long, slow recovery and rejected it.
In the early months of the crisis, Mr. Obama and his aides made clear that they would try to learn from the errors of the Great Depression and do better. They achieved that goal. They also left a whole lot of lessons for the people who will have to battle the next financial crisis.

Yo, El Supremo? Nao: o ocaso do patriarca...


Lula está definhando?

Editorial O Estado de S.Paulo, 30 de setembro de 2012
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desistiu de ajudar os candidatos do PT em dificuldades no Nordeste e vai priorizar a campanha de Fernando Haddad em São Paulo. Oficialmente, os petistas dizem que não haveria tempo para cumprir toda a agenda prevista. Mas o que fica claro é que, para Lula, a eleição em diversas capitais nordestinas já está perdida, e agora ele tenta socorrer Haddad, o candidato que ele inventou, como último recurso para salvar sua reputação de kingmaker. Trata-se de um cenário constrangedor para quem já foi classificado como "deus", pela ministra da Cultura, Marta Suplicy.
Antes do início da atual campanha, a maioria dos petistas estava segura de que, uma vez recuperado do câncer, Lula subiria nos palanques Brasil afora e, com seu toque mágico, transformaria qualquer um em prefeito. Com essa pretensão, corroborada por astronômicos índices de popularidade, Lula atribuiu-se o direito de impor suas vontades ao PT e aos aliados, incluindo-se aí tirar candidatos do bolso do colete e forjar alianças que superam os limites da decência, como a que resultou no aperto de mão entre o petista e Paulo Maluf e na coligação, em Belo Horizonte, com o notório Newton Cardoso (PMDB).
Diante dos tropeços do lulopetismo, no entanto, até "Newtão" viu-se à vontade para criticar o partido do ex-presidente, em entrevista a O Globo (28/9): "O Lula e o PT perderam o discurso, não têm mais aquela coisa do apelo do partido novo, da ética, da moral. O PT está sendo um parceiro pesado para carregar".
O caso mais emblemático dos problemas do PT é o do Recife, onde o senador Humberto Costa começou a campanha com cerca de 40% das intenções de voto e definhou até os 16%. Costa foi uma imposição de Lula, contrariando o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB - partido da base da presidente Dilma Rousseff. Como resposta, Campos lançou como candidato Geraldo Júlio, que logo ganhou o apoio de um dos maiores desafetos de Lula, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), cujas desavenças com Campos foram superadas em nome do objetivo comum de derrotar o PT.
Em carta aberta contra Humberto Costa, petistas pernambucanos criticaram a "política do personalismo" e advertiram: "O PT apequena-se perante a sociedade, utilizando práticas que sempre condenou e das quais foi vítima".
A turbulência não se limita ao Nordeste. Há também derrota à vista em Belo Horizonte, onde, segundo aliados peemedebistas, o petista Patrus Ananias - candidato indicado por Dilma e chancelado por Lula - está abandonado e há petistas trabalhando "por debaixo dos panos" em favor da candidatura à reeleição de Marcio Lacerda, do PSB, de olho nas eleições de 2014 para o governo do Estado.
Já em São Paulo, onde Lula pretende centrar seus esforços, a situação é ainda pior. A imposição de Haddad como candidato melindrou Marta Suplicy, que só entrou na campanha porque ganhou um Ministério vistoso no governo federal. Além disso, a aliança com Maluf causou uma ruidosa crise com a ex-prefeita e aliada Luiza Erundina (PSB). Ambas, Marta e Erundina, têm eleitores cativos na periferia de São Paulo, justamente onde Haddad está penando obter apoio.
O esfarelamento petista nas eleições municipais, resultante da mão pesada de Lula, é o efeito colateral do projeto de salvar a imagem do ex-presidente, ameaçada pelos efeitos históricos do julgamento do mensalão e pelo desmonte paulatino, por parte de Dilma, de seu legado de incompetência administrativa e de corrupção.
Embora empenhada em defender o que chamou de "herança bendita", a presidente mantém distância prudente da refrega eleitoral na qual seu criador está mergulhado e empresta seu peso aos candidatos lulistas de maneira apenas protocolar. Realista, ela acredita que, se Haddad chegar ao segundo turno, já terá sido uma vitória.
"O Lula está definhando", sentenciou Jarbas Vasconcelos. Pode ser um exagero, próprio da retórica de palanque. Mas parece cada vez mais evidente que, ao contrário do que se gabavam o ex-presidente e seus seguidores, Lula não é onipotente.

Miseria da oposicao (PRA, 2011): a miseria continua...


Em abril de 2011 publiquei um texto de críticas à nossa medíocre oposição política. Parece que ela continua medíocre, e o texto mais do que atual.
Segue o artigo, tal como publicado na revista Interesse Nacional e disponível neste link: http://interessenacional.uol.com.br/2011/04/a-miseria-da-oposicao-no-brasil-da-falta-de-um-projeto-de-poder-a-irrelevancia-politica/#more-245
 Paulo Roberto de Almeida 


A Miséria da Oposição no Brasil Da Falta de um Projeto de Poder à Irrelevância Política?

Paulo Roberto de Almeida
Revista Interesse Nacional, Abril 2011

O cenário político brasileiro: a deterioração democrática
Um observador medianamente informado sobre a cena política brasileira da última década seria capaz de reconhecer a conjuntura histórica de transformação que ocorre nas forças dominantes no sistema político. Trata-se de uma evolução gradual, que um analista que trabalhe com as categorias “gramscianas” provavelmente consideraria tratar-se da emergência de um novo “bloco dominante”, tendente à hegemonia política e social. Essas novas forças estão identificadas com o PT e os partidos e movimentos a ele associados, que passaram de uma longa trajetória (1980–2002) de oposição ao sistema de poder anteriormente dominante, e que mantém, desde 2003, sua bem-sucedida consolidação majoritária. Os recursos – políticos, financeiros, humanos – para essa ascensão vieram em primeiro lugar dos sindicatos e dos movimentos sociais vinculados ao partido hegemônico nesse bloco e, depois de 2003, do próprio Estado e de uma miríade de entidades dominadas ou influenciadas por ele (empresas estatais, fundos de pensão, empresários “amigos” e os próprios militantes encastelados numa infinidade de cargos públicos).
O mesmo observador tampouco deixaria de reconhecer a oposição atual como uma oposição “miserável”, ou seja, incapaz de assumir as responsabilidades de sua condição. Com efeito, ele não teria dificuldades em constatar a gradual diluição da “oposição”, das mesmas forças que ocuparam o poder entre meados dos anos 1990 e início da década seguinte, mas que foram batidas três vezes desde então (2002, 2006 e 2010) e que arriscam serem vencidas novamente em 2014. O que surpreende no processo político brasileiro não é tanto a capacidade do governo de alinhar em torno de suas posições as forças políticas dos mais variados horizontes, sobretudo no Congresso; a surpresa é constituída, antes, pela debilidade da “oposição”, derrotada, mas ainda não destruída, e sua incapacidade de reorganizar suas tropas, de redefinir suas bandeiras de luta e de exercer sua função institucional de oferecer uma alternativa às políticas do bloco no poder.
O termo “oposição” figura, na maior parte deste ensaio, entre aspas, pois o que se apresenta hoje, fora do arco governamental, não merece, legitimamente, essa designação, seja por deficiências intrínsecas, seja por fatores objetivos vinculados ao quadro político-eleitoral do Brasil. As aspas, justamente, não se devem às derrotas, esperadas ou previsíveis, da “oposição”, mas à sua incapacidade de ser aquilo a que o processo político a relegou temporariamente: uma oposição, na plena acepção da palavra. Se, e quando, ela assumir seu papel, será eximida da presença das aspas.
Se o mesmo observador, especulando por antecipação, fosse convidado a traçar um prognóstico sobre o futuro do sistema político brasileiro e se, no mesmo movimento, ele se dedicasse a divagar sobre a trajetória provável da “oposição” nos anos à frente, talvez não hesitasse muito em prever um destino melancólico, quando não trágico, para as forças que passam por oposição ao governo do PT. Estaria ela, de fato, condenada a desaparecer do cenário político, como força alternativa viável ao atual bloco hegemônico? Teriam os supremos estrategistas petistas – muitos mais por instinto do que por estratégias bem calculadas – conseguido realizar aquilo que Gramsci pregou no cárcere mussoliniano, sem que ele ou o partido que recuperou sua herança intelectual jamais tivesse conseguido materializar na prática? Estaríamos em face de um “bloco histórico” destinado a manter hegemonia sobre o sistema político pelo futuro previsível? Se isso ocorrer, seria o mais próximo que o Brasil já chegou daquilo que muitos representantes desse bloco chamam de “pensamento único”, embora eles mesmos apliquem o termo a uma inexistente ou rarefeita tribo de “neoliberais”.
Este texto não aspira responder a todas as questões relevantes para o futuro da democracia no Brasil. Não é nosso objetivo analisar todos os componentes de um sistema político relativamente complexo em suas diferentes vertentes organizacionais e forças atuantes, mas relativamente simples quanto às linhas principais de seu ordenamento. De um lado, temos o poder econômico incontrastável de quem detém o poder – e pode, assim, “comprar”, literalmente, os apoios de que necessita para se perpetuar no poder; de outro, forças dispersas e desorganizadas que sequer se entendem sobre um diagnóstico da situação, para planejar um contra-ataque que estaria na lógica de todos os sistemas políticos democráticos: a alternância no comando do Estado. Uma constatação de ordem geral não pode, contudo, deixar de ser feita inicialmente: o sistema democrático brasileiro, que já era de baixa qualidade antes de 2003, tornou-se ainda mais deplorável no plano de seu funcionamento e no de sua responsabilidade para com os eleitores, uma vez que o bloco petista se encarregou de deteriorar ainda mais a qualidade da democracia brasileira, realizando um amálgama de todas as forças políticas oportunistas, fisiológicas e rentistas que sempre se aproximaram do centro do poder, qualquer poder.
Mas o presente texto não pretende analisar o cenário político brasileiro como um todo; trata apenas da trajetória recente da atual¬ “oposição” ao governo do PT, supostamente empenhada, desde 2003, em criar as condições para reconquistar seu eleitorado e se configurar como alternativa viável de governo, no seguimento de uma hipotética vitória eleitoral em 2014. Estabelece primeiro um diagnóstico da situação política na presente conjuntura, para examinar em seguida as tarefas da oposição num sistema político democrático. Passa, então, a analisar as principais deficiências da “oposição” brasileira, para depois formular uma série de considerações sobre uma possível estratégia de reconquista do poder pela “oposição”, visando convertê-la em oposição, simplesmente, credível e com chances de chegar ao poder. O texto conclui afirmando que o eventual sucesso de qualquer estratégia de ação da atual “oposição” depende, em grande medida, de lideranças esclarecidas, o que não parece ser o caso, atualmente, com o simulacro de oposição existente.
Outra constatação inicial, que o mesmo observador político referido ao início deste ensaio poderia fazer é que essa “oposição” presumida deixou ao relento, de fato órfão, metade do eleitorado brasileiro, a julgar pelas evidências da mais recente campanha presidencial, ao faltar com suas responsabilidades de verdadeira oposição e ao não oferecer respostas compatíveis com as demandas desses eleitores. Mas essa constatação é um desdobramento lógico da análise que agora passa ser feita.
Continuar a leitura neste link:
ou neste: 

Munich, again: September 30, 1938 - Dilemmas of Diplomacy - James M. Lindsay


History Lessons: The Munich Agreement

by James M. Lindsay
The Water's Edge, September 26, 2012

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A new installment of “History Lessons” is now out. This time I examine the signing of the Munich Agreement in the early morning hours of September 30, 1938. (The agreement itself is dated September 29, 1938.) In the video, I discuss the origins of the crisis over the Sudetenland, what British prime ministerNeville Chamberlain thought he was accomplishing in his negotiations with Adolf Hitler, and why the Munich Agreement did not bring “peace for our time.”
Watch the video on YouTube here.
The Munich Agreement has become a classic example of how not to conduct foreign policy, and it turned “appeasement” into a dirty word. But Munich also highlights a classic dilemma of diplomacy: accommodation can signal weakness and invite aggression, but standing firm can trigger conflicts otherwise avoided. Policymakers choose between these two risks at their peril because which of them is greater is clearer when looking backward in history than when looking forward into the future.
So here’s a question to consider when thinking about American foreign policy: on what issue or conflict is the United States most likely to repeat Neville Chamberlain’s mistake?
If you are interested in learning more about the Munich Agreement, here are some books worth reading:
Goldstein, Erik and Igor Lukes (eds). The Munich Crisis, 1938: Prelude to World War II (1999).

Post a Comment4 Comments

  • Posted by Carl F
    There is a scene in The Godfather and its very striking with Clemenza & Michael. Clemenza says “you gotta stop them at the beginning. Like they should have stopped Hitler at Munich…. they was just asking for trouble”. The quote from Winston Churchill is absolutely stinging as well. I wonder if the same logic can be applied to the world situation today. Will we choose dishonor and still have war?
    An avid Reader,
    Carl
  • Posted by MHP
    Great piece. I don’t have an answer to your question, but a war with China seems like it would present a problem for the political leaders of that country: for instance, I believe that the leaders of the country maintain their power by allowing American money to flow into the country through their manufacturing sector — a war would mean shutting down funding from America.
    The leaders (at least partially) derive power through the export mechanism, a war might disrupt that, therefore disrupting the power of the current political class. Just my two cents–
  • Posted by Arber Lloshi
    By the question one understands that to make the same mistake USA has to make concessions to one of the two states, concession which shall bolder or strengthen that state in the point it shall directly oppose USA either in open war, or in any alike action/activity. To answer the question we should get back to history first:
    Chamberlain’s decision was a result of two main factors: First, UK was not willing to fight against Germany, but rather maintain a status quo of competing and antagonist states in mainland Europe, namely France, Germany and USSR. Since in the middle, Germany needed to be stronger to balance the power of the other historically enemies of Britain (in political, economical, historic, or ideological terms). And there was the belief that Germany would contain and oppose communism and protect West from the East.
    Second, UK was not prepared to fight an inland war with Germany. The population was not willing, neither the army was as strong. Also, economic benefits of a peaceful Europe must have had some rule.
    In the today globalized world, none of the two countries fulfills all of those characteristic: Iran is not in the position Germany was in terms of military and economic power compared to that of USA, but can be used as a tool of keeping the balances of Middle East in check (as long as it does not have nuclear armament and the present Syrian regime falls) and China is in almost the same, military, economic and political position as Germany was, but is cannot be used as a tool for keeping balances in east Asia, since it tends to disrupt it by gaining more power on itself. The social and economic factors play a bigger role in the case of China than that of Iran. for those reasons I believe that there is a bigger chance that USA refrains/limits itself more towards China than towards Iran. Although there is a bigger chance for China to act more aggressively against US interests after such a limitation than Iran, considering its economic, military, territorial and demographic might. Even though Iran tends to be more aggressive I don’t think it has any of the tools needed to directly oppose US, but is just trying to gain the leading role in the Middle East, strongly in question now. I’d think of Iran more as the Italy of WWII (was never going to fight UK alone in the Mediterranean and not any big concessions was made to).
  • Posted by Jacob AG
    The circumstances are very different, especially in that Israel is an American ally, but I find it plausible that the U.S. would appease Israel to such an extent that Israel gets into a hot war and the U.S. intervenes.

Tchan, thchan, tchan: com voces, o ajuste de "esquerda" (so podia ser na Franca...)

Maravilha das maravilhas: os números agora têm cor, sabor, ideologia, partido, geografia. Eles podem ser esquerda, ou de direita. No primeiro caso, tudo é feito em favor do povo; no segundo, tudo em favor dos ricos.
Um orçamento pode ser de direita ou de esquerda, e segundo a posição ele é por natureza perverso, e no outro caso bonzinho com quem mais necessita.
Este artigo é para guardar e retomar dentro de dois ou três anos: o tempo das medidas socialistas, do "ajuste de esquerda" fazer efeito, e aí poderemos ver como os números realmente se diferenciam e como a contabilidade tem características de classe.
Ainda bem que temos o Carta Maior para nos colocar ao tanto dos aperfeiçoamentos da contabilidade socialista.
Paulo Roberto de Almeida 


França: orçamento socialista taxa mais ricos e empresas

Carta Maior, 30/09/2012


O presidente François Hollande apresentou um projeto de orçamento para 2013 marcado por um nível de arrocho jamais visto nos últimos 30 anos e por um aumento dos impostos que, globalmente, recairá sobre os bolsos das famílias de maior renda e das empresas com maiores lucros. O primeiro orçamento socialista modifica o que foi realizado até agora pela direita: dois terços das arrecadações virão do aumento dos impostos para os ricos e as empresas, o que implica o fim de numerosas isenções fiscais. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Paris - O socialismo francês acaba de formatar uma versão inédita da disciplina orçamentária: o rigor à esquerda. O presidente François Hollande apresentou ao Conselho de Ministros um projeto de orçamento para 2013 marcado por um nível de arrocho jamais visto nos últimos 30 anos e por um aumento dos impostos que, globalmente, recairá sobre os bolsos das famílias de maior renda e das empresas com maiores lucros. 

No total, esse plano qualificado como “orçamento de combate” se articula em torno da arrecadação de 20 bilhões de euros de novos impostos e de 10 bilhões cortados em gastos administrativos. Os 20 bilhões serão pagos, em partes iguais, 10 bilhões os mais ricos e 10 bilhões as empresas mais lucrativas. A essa soma deve-se agregar ainda outros 2,5 bilhões de euros que serão cortados do seguro social.

No total, se se adicionarem os objetivos deste orçamento mais as medidas votadas em julho passado, o Executivo aposta em obter uma arrecadação suplementar de 40 bilhões de euros. O objetivo não é social, mas orçamentário: trata-se de levar o déficit atual, 4,5% em 2012, para 3% em 2013. A meta, no entanto, se apoia em um cálculo de crescimento de 0,8%, uma variável que os economistas julgam demasiado otimista e tão incerta quanto um número de loteria.

O certo é que, após dez anos de governos de direita e de orçamentos conservadores que decapitaram as classes médias e populares, François Hollande elaborou o primeiro orçamento da esquerda. Não há, cabe dizer, nenhuma reorientação substancial. Trata-se sempre de reduzir a dívida e os déficits, mas sem sancionar aqueles que antes pagavam a conta nem desmantelar o pouco que resta do Estado de Bem-Estar. 

O Executivo assegurou que os mais de 24 bilhões que serão arrecadados com os novos impostos virão “unicamente de um em cada dez cidadãos e das maiores empresas”. O cálculo está longe de ser verossímil. O primeiro ministro francês, Jean-Marc Ayrault, assegurou quinta-feira que “90% dos franceses, as classes médias e populares, não pagarão mais impostos. O esforço recairá sobre os 10% que têm mais renda e, entre estes, sobre o 1% mais ricos”.

No entanto, a França sabe hoje que todo mundo terminará pagando algo, ainda que desta vez a redistribuição do esforço será mais equitativa porque rompe com a política da vítima única tão comum quando a direita está no poder. A demonstração em cifras mostra que o Executivo socialista apontou suas calculadoras para as pessoas que tem maiores recursos: as pessoas que têm ganhos equivalentes a 150 mil euros (1%, o que equivale a 50 mil contribuintes) pagarão muito mais impostos do que antes. A partir de 250 mil euros os impostos aumentam exponencialmente. A isso se soma uma taxa de 3% que sobe para 4% para quem ganha na casa do meio milhão de euros. As 1.500 pessoas que ganham esta soma pagarão uma taxa excepcional de 75%.

Antes que fosse divulgado o projeto de orçamento para 2013, os empresários franceses lançaram uma ofensiva e questionaram a filosofia da reforma fiscal. O organismo que agrupa o patronato, o MEDEF, vem dizendo que a chave está tanto na redução do gasto público quanto nos custos necessários para manter um posto de trabalho.

A situação da França é complexa. Há hoje mais de 3 milhões de desempregados e um crescimento que está estagnado. François Hollande deve, ao mesmo tempo, cumprir suas promessas de justiça social sem perder de vista a dívida e o déficit. O contexto, porém, é adverso. O Instituto Nacional de Estatística (INSEE) revelou esta semana que durante o segundo trimestre de 2012 a economia teve um crescimento nulo. O ex-presidente liberal Nicolas Sarkozy saiu em maio passado, mas deixou uma dívida colossal. Nos cinco anos de seu mandato, a dívida passou de 64% do PIB para 91%. François Hollande disse nesta sexta-feira que o país teve “600 bilhões de dívida suplementar durante o último quinquênio. Eu me comprometo a que, no final de meu mandato, não haja nenhum euro a mais”. 

A dívida da França tem repercussões enormes. Segundo explicou o governo, o que se cortará e o que se arrecadará no ano que vem servirá apenas para pagar os juros dos empréstimos contraídos, a saber, cerca de 46 bilhões de euros. A missão de François Hollande se parece com a de um desses filmes norteamericanos onde o herói tem que fazer um monte de proezas impossíveis para sobreviver e seguir sendo herói: o chefe de Estado tem que acalmar os mercados, a Alemanha e a Comissão Europeia, zelosa guardiã dos interesses liberais; ao mesmo tempo, Hollande deve corrigir o caminho traçado pela direita que governou durante a última década e manter vivo o moribundo Estado de Bem-Estar. E como se isso não fosse o bastante, também precisa ser fiel aos compromissos de igualdade, justiça e solidariedade.

O primeiro orçamento socialista modifica o que foi realizado até agora pela direita: dois terços das arrecadações virão do aumento dos impostos para os ricos e as empresas, o que implica o fim de numerosas isenções fiscais aprovadas pela direita para essa categoria. O terço final sai dos cortes nos gastos administrativos. Com exceção dos ministérios da Educação, Justiça e Segurança, todos os demais entraram no regime de cortes. Os socialistas estão produzindo um novo filme: “Os caçadores das arcas vazias”. Por enquanto a conta será paga pelos ricos. No entanto, só se conheceu o primeiro capítulo de uma produção que pode trazer muitas surpresas. Os fundos não saem do nada e é muito possível que, de alguma forma, todo mundo termine pagando algo.

Tradução: Katarina Peixoto