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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

domingo, 19 de junho de 2016

Dez anos de Diplomatizzando, quinze blogs em treze anos... - Paulo Roberto de Almeida


Dez anos de Diplomatizzando, quinze blogs em treze anos...

Paulo Roberto de Almeida
 [Balanço geral da escrevinhação, contabilidade do Diplomatizzando]

Eu me defino como um “escrevinhador”, ou seja, alguém que vive, não da escrita, mas pela escrita, com a escrita, para a escrita, isso como resultado de muita leitura, pois eu também sou alguém que vive com os livros, pelos livros, para os livros. Ambas atividades, ou posturas, são inseparáveis, totalmente indissociáveis, e entre as duas perpassa uma postura de constante reflexão, que parte da observação das coisas da vida, do panorama comparado do que fazem os países, do que eles fizeram ao longo da história, e que também se combina com uma outra atitude minha: a anotação constante das coisas que leio, das que observo, que atiçam minha atenção, que despertam minha inteligência e que me levam aos caminhos de mais leituras e mais escrevinhação.
Numa primeira fase da vida, na era AC, ou seja, antes dos computadores, a escrita constituía o que o nome diz: caligrafia própria em cadernos de notas, diversos, muitos, sucessivos, numa determinada etapa divididos na várias áreas das humanidades (história, sociologia, antropologia, marxismo, Brasil, etc.), um pouco mais tarde, por meio de máquinas de escrever. Meu maior investimento nessa era AC foi a aquisição de uma IBM elétrica de esfera, que junto com uma copiadora xerox, ambas para fazer a tese de doutoramento, me custaram tanto quanto um carro usado, a preços de Suíça.
Depois veio a era DC, depois do computador, e todos eles foram Apple: por uma espécie de pecado original, sempre fui um macmaníaco exclusivo e excludente, e isso aumentou tremendamente a minha produtividade. Hesitei muito antes de investidor no meu primeiro computador, também na Suíça (mas já numa segunda estada), e ele deve ter custado quase tanto quanto um outro carro usado: era um MacIntosh Plus de segunda mão, no qual tudo tinha de caber dentro de um disquete de 720 kb. Uma limitação terrível para quem, como eu, que sempre escreveu demais, e não podia mesmo caber num simples disquete. Meu segundo investimento nessa fase, portanto, ainda no mesmo ano de 1987, foi a compra de um disco rígido externo, quando descobri que a Irlanda, que até pouco antes parecia relativamente pobre, mas tinha se transformado numa espécie de zona franca de acessórios de informática.
A escrevinhação aumentou de forma exponencial a partir de então, dispensando completamente os cadernos manuscritos para passar aos arquivos de computador (em diversos processadores de texto, antes de aderir, enfim, ao inevitável Microsoft Word do desprezado Bill Gates). O computador aumenta a produtividade, mas também facilita aquele velho princípio do Lavoisier, segundo o qual trabalhos antigos são reciclados na base do “save as” ou do “copy and paste”. Mas esta é outra questão, neste balanço de uma outra questão, a passagem a outra era da minha escrevinhação: a divulgação dos trabalhos em suportes cibernéticos, via internet, o que até meados dos anos 1990 era feita exclusivamente por meio de correio eletrônico ou de de sites improvisados.
Eu ingressei na era da internet, AI, um pouco tardiamente, só no início dos anos 1990, na passagem de Montevidéu, até o início de 1992, para Paris, em setembro de 1993, com uma curta estada em Brasília no meio. Ainda na base do acesso discado, com as dificuldades que se conhecem, e navegando lentamente pelo Netscape, o padrão e quase único software de navegação da então nascente world wide web. Logo em seguida, começaram ofertas de hospedagem gratuita, tipo Geocities, Tripod e outros do gênero. Demoraram vários anos ainda para que eu criasse o meu próprio domínio, e encontrasse meu próprio provedor de hospedagem, não que eu fosse um conservador por natureza, ou arredio a novas tecnologias, mas é que sempre recusei ler manuais e aprender linguagem html, ou de webdesign, mas isso foi feito, de alguma forma antes da virado do século, do milênio, do bug do ano 2000 (que não me impressionou muito).
O site individual não é exatamente uma forma de comunicação, apenas uma biblioteca aberta de forma passiva à informação, a partir da qual é possível, se assim decidido, repassar materiais a terceiros pela via do e-mail (o que nunca fiz), ou receber visitantes, que podem, ou não, deixar sua marca direta ou indireta no site. Acabei adotando essa TIC também de forma relutante, pois ela implica em certo trabalho de construção, administração, alimentação, e só o fiz para não ter de ficar respondendo individualmente às muitas demandas e questionamentos de leitores de meus trabalhos, geralmente a propósito do Mercosul, da integração regional, ou de temas de relações internacionais, de forma geral, ou de política externa e diplomacia brasileira, em especial. O material estava disponibilizado e cada um podia se servir à vontade, no formato de simples leitura ou no mais tradicional “copy and paste” para trabalhos de curso. Enfim, sites acadêmicos são feitos para isso mesmo.
A administração e a alimentação de um site pessoal requerem, entretanto, um trabalho adicional, para a transposição dos textos nos formatos adequados e o seu carregamento via ferramentas especializadas, a organização dentro do site, etc. Esse trabalho cansativo foi o que me motivou, também tardiamente, a adotar a tecnologia dos blogs, o que só feito no final de 2005, o primeiro blog, que levava o meu nome, num total de um dúzia deles, sucessivamente ou para finalidades específicas. Incompetente como sou na administração desse tipo de ferramenta, acabei abrindo novos blogs cada vez que o corrente apresentava algum problema de carregamento, além de outros que procurei reservar para determinadas áreas de especialização (resenhas de livros, textos de terceiros, eleições presidenciais, estada na China, quando não para os meus próprios livros ou meu itinerário intelectual).
O fato é que o blog Diplomatizzando, que sucedeu ao Diplomatizando, veio a luz num dia 17 de junho de 2006, tendo já completado, portanto, dez anos de vida, sem que outros tenham deixado de existir, e de coabitar nessa década, embora com cada vez menor recurso gradativamente. Se eu fizer a contagem das postagens exclusivamente neste blog principal, elas somaram, mais de 16.500, segundo a contagem do próprio blog, número que deve ser somado às postagens nos blogs anteriores, ou antecedentes (meu primeiro, sob o meu nome, um segundo, chamado de “Cousas Diplomáticas”, e um terceiro, já designado como “Diplomatizando”). Como eu tinha o cuidado de numerar cada postagem produzida, as postagens que antecederam este Diplomatizzando alcançaram um número aproximado de 487, o que daria, portanto, quase 17 mil inserções nesta sequência de blogs estritamente pessoais.
Se somo a isto todas as demais postagens em blogs paralelos, isto é, aqueles especializados (Vivendo com Livros, Textos, Book Reviews, DiplomataZ, Shanghai Express, Academia, e mais dois dedicados respectivamente às eleições de 2006 e de 2010), chego a uma totalização paralela superior a 2.800 postagens. Somando, portanto, esses números de postagens a todos as demais, chego à uma conta de quase 20 mil postagens desde dezembro de 2005, quando dei início a esta saraivada de materiais. Ainda que grande parte do material seja transcrição de imprensa, ou escritos diversos de terceiros, eles sempre exigem algum tratamento preliminar, leitura pelo menos rápida, para algum comentário inicial, e depois postagem. Tudo isso pode ser verificado no próprio blog Diplomatizzando, que traz a listagem de todos os blogs sob a minha exclusiva responsabilidade.
Trata-se, sem nenhuma dúvida, de um volume impressionante de produção, com comentários sempre substantivos, muitas ilustrações e um diálogo unilateral com meus leitores, que nunca me preocupei em ficar metrificando. Nessa produtividade cabe aliás contar uma outra parte da “escrevinhação”, que é as respostas que sempre procurei dar aos comentários feitos por leitores, sem esquecer as feitas através do site pessoal, onde também existe um formulário de contato, através do qual recebo perguntas, mensagens, que depois respondo por e-mail. Não posso assim, ser acusado de não ser um um prolífico "escrevinhador". Pois bem, vejamos isso agora.
Computando apenas meu blog Diplomatizzando, que teve início em 17 de junho de 2006, já com a marca de 486 postagens anteriores (ou seja, nos blogs antecedentes, como o Diplomatizando, com apenas um z, e dois outros, anteriores), ele marcava, na data de ontem, 18 de junho de 2016, isto é, dez anos e um dia depois, 16.693 postagens, o que dividido por 10 anos, ou 3.650 dias, indica uma produtividade de 4,7 postagens ao dia, ou cerca de 140 por mês no decurso dessa década.
Volto a lembrar que muitas dessas postagens foram constituídas a partir de materiais de terceiros, ou seja, transcrições de matérias da imprensa, relatórios, estudos, quaisquer tipos de informações que julgo interessantes do ponto de vista do meu “público” – geralmente estudantes e pesquisadores de relações internacionais e política externa do Brasil, com uma grande extensão a todas as áreas da política internacional e da economia mundial, latino-americana e brasileira – mas às quais eu sempre procurei agregar um comentário antecedendo a transcrição dessas matérias. Talvez um terço tenha sido de produção minha, também, de diversos tipos.
Em todas as minhas postagens, por mais leves ou anódinas que possam ter sido, procurei preservar um determinado padrão de qualidade, seja ao abordar reflexões sobre a vida diplomática até simples observações sobre a vida diária, livros e quaisquer outros temas que interessam à inteligência humana, numa linguagem que espero saborosa e ao mesmo tempo despretensiosa, refletindo certa cultura e algum refinamento intelectual, como seu reproduzisse uma espécie de equivalente digital dos antigos salões de debates do Ancien Régime, ou da République des Lettres.
Abandonei, quase completamente, todos os demais blogs, para concentrar-me quase exclusivamente no Diplomatizzando, mas ainda preciso fazer não só um balanço mais preciso de todos eles, como também empreender um esforço de recuperação de trabalhos relevantes, que não tenham sido recuperados nos meus registros de trabalhos originais. Penso isso, por exemplo, de muitos comentários a programas eleitorais a partir dos dois blogs de campanhas presidenciais, ou no blog Shanghai Express, quando me dediquei a entender a China por meio de comentários a materiais os mais diversos. Em outros termos, minha produção pode ainda aumentar, devido ao trabalho dos blogs, o que me parece natural, pois muitos comentários poderiam preencher páginas e páginas de escritos substantivos, mas que permaneceram inéditos, a não ser por essa via.
Mais recentemente, ano e meio para trás, acabei aderindo também a uma outra ferramenta, o Facebook, que evitei durante muito tempo, sempre sob a mesma escusa de não querer “perder tempo” com “fofoca”, ou material “sem valor”, para poder empregar o máximo de tempo na leitura de livros, jornais, revistas, e no meu vício eterno, a arte da escrevinhação. Mas todos somos obrigados a nos render, em algum momento a esse novo e universal instrumento, inclusive para poupar tempo, pois a ferramenta permite alguma assemblagem de notícias diversas que de outra forma precisariam ser buscadas a cada vez nos sites dos principais jornais e revistas: os colegas de Facebook acabam nos trazendo essas notícias já selecionadas, uma vez que se tenha selecionado os “bons amigos” e excluído os chatos e inconvenientes (e como os há no FB).
Por fim, não há como ignorar os instrumentos próprios de busca e recebimento de materiais diversos, os assembladores de notícias – tipo Feedly, por exemplo – ou os alertas que selecionamos segundo nossas próprias preferências: tenho vários conceitos ao abrigo do Google Alert: política externa brasileira, diplomacia brasileira, história diplomática, etc. Não esquecer tampouco as assinaturas em listas especializadas, tipo história econômica, América Latina, e várias outras mais, ademais das remessas feitas por think tanks de minha escolha. Tudo isso conforma uma massa impressionante de materiais que entram continuamente em minha caixa de entrada, ou que pipocam o tempo todo na tela, chamando a atenção para “leitura imediata”. Last, but not the least, as mensagens das “amizades desconhecidas”, cultivadas por algum motivo qualquer nas mesmas ferramentas. Sempre existe algum material que encontra o caminho do blog Diplomatizzando.
Não tenho bolo ou velinhas para soprar pelo décimo aniversário deste meu blog, que já faz parte, acredito, da paisagem de diplomacia brasileira e de áreas afins, o que não deixa de ser uma ocupação “didática” gratificante, ao lado das aulas regulares que ministro na disciplina de Economia Política nos programas de mestrado e doutorado em Direito do Centro Universitário de Brasília. OK, acho que basta isso para comemorar dignamente os primeiros dez anos do Diplomatizzando. Longa vida a esse pequeno espaço de liberdade, muitas vezes definido como um quilombo de resistência intelectual em momentos sombrios da governança política, quando quase fomos arrastados para um patrimonialismo de tipo gangster, por força das opções eleitorais da maioria do povo. Creio que fiz a minha parte no trabalho de resistência, e disso posso me orgulhar...

Paulo Roberto de Almeida 
Brasília, 19 de junho de 2016

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