O que é este blog?

Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

sábado, 30 de abril de 2016

Itamaraty: Senador Jose Serra assume o ministerio - Patricia Campos Mello (FSP)

Serra no Itamaraty
Patricia Campos 
DE SÃO PAULO
Folha de São Paulo, 30/04/2016

A perspectiva de ter o senador José Serra (PSDB-SP) como próximo chanceler anima o Itamaraty, segundo apurou a Folha. Ter como ministro um político de estatura em vez de um diplomata de carreira fortaleceria o ministério em um momento de fragilidade. Com Serra, o Itamaraty voltaria a ter o peso que não tinha desde a saída do chanceler Celso Amorim, em 2010, acreditam diplomatas.
Mas a possibilidade de transferir a área de comércio exterior para o ministério é alvo de fortes críticas. Um Itamaraty "turbinado" incluiria toda área de comércio exterior, ou somente a Apex, agência que faz promoção comercial. O primeiro cenário gera pânico no Ministério do Desenvolvimento e profundo desagrado no Itamaraty.
"Seria como misturar vinho com azeite", diz uma fonte. São duas carreiras muito diferentes –a política externa segue uma visão de Estado enquanto a política comercial precisa abrir mercados e vender produtos. "É preciso ter um órgão que receba demandas do setor privado, como defesa comercial, e o Itamaraty não pode ser esse órgão, porque vai priorizar as relações diplomáticas com outros países", diz uma fonte do Desenvolvimento. União Europeia, EUA, China e Japão têm ministérios separados para lidar com comércio exterior e diplomacia.
Além disso, a incorporação da área de comércio exterior tomaria muito tempo e talvez nem estivesse pronta até o fim do governo Temer, em 2018.
Pessoas próximas a Temer afirmam que o vice fez a proposta a Serra sem pensar exatamente em como esse Itamaraty "turbinado" sairia do papel, tentando emplacar um "ministério fortalecido" em vez das pastas da Fazenda ou Planejamento, que o tucano preferia.
De qualquer maneira, diplomatas já comemoram a possibilidade de um ministro Serra. "Seria um ministro com acesso ao presidente e ao Ministério do Planejamento, que lidera os cortes de verbas do Itamaraty", diz um diplomata. Entre as mudanças esperadas estariam o fechamento de postos na África, menos ênfase no relacionamento Sul-Sul e uma guinada no Mercosul.
Mas o embaixador Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda que é muito próximo de Serra, com quem conversa regularmente, não acredita em mudanças dramáticas na política para o Mercosul. "Não se sabe se transformar o Mercosul em área de livre comercio traria benefícios e a Argentina agora tem um presidente, Mauricio Macri, que não seria obstáculo a negociações comerciais", diz. Matias Spektor, professor de Relações Internacionais da FGV e colunista da Folha, concorda. "Fazer reformas no Mercosul e no comércio exterior é muito complexo e geraria muitos inimigos", diz.
Em relação à personalidade difícil do senador, um diplomata é pragmático: "Depois de tanto tempo trabalhando com a Dilma, o Serra não seria um problema."
Entre os diplomatas com bom trânsito com o senador tucano estão Sergio Danese, atual secretário-geral do Itamaraty; Santiago Mourão, embaixador em Teerã, Mário Vilalva, embaixador em Lisboa, Marcos Galvão, embaixador junto à OMC, e Roberto Jaguaribe, embaixador em Pequim.
Se o chanceler for mesmo um político, o assessor internacional da presidência, cargo hoje ocupado por Marco Aurelio Garcia, poderia ser um diplomata de carreira, e o nome de Danese surge com força. Segundo um interlocutor de Temer, o vice já teve várias audiências com Danese e a "química foi boa".

Governo paga a companhias investigadas na Lava Jato (elementar meu caroWatson)

Como é que os companheiros vão pagar essas bancas de vinte advogados caríssimos que os defendem (nem sempre com sucesso, aliás com muito insucesso) do juiz Moro, se o governo deixar de pagar as empresas que os abastecem?
Paulo Roberto de Almeida

SANGRIA DESATADA
 GOVERNO PAGA MEIO BILHÃO A EMPREITEIRAS DO PETROLÃO
GOVERNO JÁ PAGOU R$ 512 MILHÕES A ENROLADAS NA LAVA JATO EM 2016
Diário do Poder, 30 de abril de 2016

A Lava Jato está na rua há dois anos, com a prisão de executivos de  construtoras que se associaram a políticos ligados aos governos Lula e Dilma para roubar a Petrobras, mas as empreiteiras não têm muito o que reclamar: somente em 3 meses de 2016, oito delas já receberam R$ 512 milhões do governo Dilma. Somente a Odebrecht, com seu ex-presidente preso há mais de 10 meses, faturou R$ 278 milhões. A informação é do colunista Claudio Humberto, do Diário do Poder.
Queiroz Galvão, Mendes Junior, Camargo, Engevix, Andrade Gutierrez, OAS e UTC ratearam R$ 234 milhões do governo Dilma em 3 meses.
Quase 90% de R$ 107 milhões embolsados pela Queiroz Galvão saíram do DNIT, que, alegando não ter dinheiro, vai paralisar 61 obras.
A Mendes Junior faturou R$ 62 milhões este ano, antes de a CGU declará-la inidônea. A empresa não terá contratos por dois anos.
Sob o nome de Constran, a UTC de Ricardo Pessoa, chefe do cartel de empreiteiras, levou R$ 52 milhões do governo Dilma só este ano.

Itamaraty: equidistância pragmatica do impeachment? - Leticia Pinheiro e Maria Regina Soares de Lima (Carta Capital)

As duas professoras, conhecidas apoiadoras da diplomacia ativa e altiva dos companheiros, estão descontentes com a postura de antigos companheiros diplomatas que agora relutam em continuar apoiando um governo que se esvai nos estertores de sua própria incompetência e corrupção.
Segundo elas, a diplomacia não pode ser considerada exempta das políticas de Estado, como se os diplomatas e o Itamaraty pairassem acima do governo, e fossem indiferentes à sorte (e às opções) do governo, ou dos governos, que são os entes concretos que dão sentido e materialidade à tal de "política de Estado" que elas acreditam não existir fora das políticas de governo.
Os diplomatas seriam assim traidores ao governo, se pretendem colocar-se à margem, ou acima, como prefeririam provavelmente os diplomatas, dessas disputas mesquinhas da política partidária, ou seja, do mundo real.
Compreendo que elas estejam incomodadas em que o Itamaraty não conduza uma defesa mais enfática do governo, mas vamos ser claros. Elas não estão pretendendo que o Itamaraty defenda políticas de governo na área externa; elas estão provavelmente pretendendo que o Itamaraty defenda o governo de acusações internas de malversação de recursos públicos de um suposto "golpe" que estaria sendo perpetrado por uma oposição derrotada nas urnas, sem motivos reais, e portanto o Itamaraty deveria estar propagando a tese do "golpe" no contexto externo, nos órgãos regionais (quase todos dominados por bolivarianos) e nos foros internacionais.
Compreendo a frustração de duas engajadas na tal de diplomacia ativa e altiva, cuja principal característica foi implementar uma danosa diplomacia Sul-Sul, defender ditaduras de todos os quilates, sobretudo as da própria região, e tornar obscuros vários eventos nos quais essa diplomacia foi involuntariamente envolvida (Bolívia, Venezuela, Cuba, Angola, Honduras, e outros mais), e distorcer completamente as principais prioridades da anterior política externa, como uma integração regional baseada não na fantasmagoria da integração social, mas nos objetivos bem claros desses processes: abertura econômica e liberalização comercial.
Ninguém há de negar, atualmente, que o Brasil esteja enfrentando a mais grave, a maior, a mais danosa crise econômica, política, moral, de toda a sua história, e a diplomacia dos governos lulopetistas também foi responsável pela diminuição do prestígio da nossa diplomacia, isso desde o início, mas principalmente nesta atual gestão desastrosa.
Logo depois que o Brasil votasse contra, na ONU, a resolução rejeitando a invasão russa na Crimeia, um embaixador europeu de importante país disse que, se o Brasil ainda tinha a esperança de ser admitido num CSNU renovado e ampliado, com essa opção, ele podia esquecer essa pretensão. Eu apenas diria que não foi o Brasil que votou a favor da Rússia, e contra o direito internacional, nem o Itamaraty. Foi o governo, e mais exatamente o seu partido. Mas, como sempre, os companheiros confundem partido e governo.
As professoras também devem achar que partido do governo deve poder implementar as suas políticas partidárias, qualquer que seja a postura da diplomacia profissional.
É contra isso, justamente, que um serviço profissional deve se posicionar, expressando sua postura baseada em critérios de interesse nacional (que elas acreditam que são muito difusas, para serem consideradas) e de direito internacional.
Paulo Roberto de Almeida

Diplomacia

Itamaraty e o impeachment: equidistância pragmática?

O que significa a escolha por uma postura "rigorosamente institucional" da cúpula diplomática com relação ao processo de afastamento de Dilma Rousseff
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 29/04/2016 17h32
Xavier Granja Cedeño
Por Leticia Pinheiro e Maria Regina Soares de Lima
Carta Capital, 29/04/2016

Com destaque na mídia nacional, circulou a notícia de que o Itamaraty pretendia adotar uma "postura rigorosamente institucional" com relação ao processo em curso de impeachment da Presidente Dilma. Traduzida pelo próprio articulista, esta postura implicaria que a cúpula diplomática não iria "denunciar um 'golpe' no exterior".
Tal comportamento não constitui surpresa para quem acompanha a política externa tendo em vista o tradicional apego daquela instituição ao princípio da "não ingerência" em assuntos domésticos até hoje aplicado, até onde se tem notícia, a eventos na esfera internacional.
Sua aplicação ao campo doméstico do próprio Brasil revela uma narrativa também tradicional na casa de Rio Branco de considerar a política externa como uma política de Estado e não de governo. Quais as implicações desta crença?
Em primeiro lugar, cabe sublinhar que, diferentemente do suposto que ancora este entendimento, afirmamos que toda política de Estado nasce como política de governo. E, da mesma forma que esta transformação se deve a um processo político, assim será sua eventual negação como política de Estado.
Dito isto, a primeira e mais óbvia implicação desta crença equivocada de que a política externa estaria vinculada a interesses nacionais autoevidentes e/ou permanentes, é o Itamaraty se colocar em um lugar muito particular na estrutura institucional e política brasileira, acima da "pequena política" dos partidos e dos grupos de interesse.
E, por extensão, desconsiderando que no regime presidencialista e democrático é o presidente o responsável pela formulação da política externa que, por sua vez, resulta de coalizões, barganhas, disputas e acordos entre representantes de interesses diversos, cabendo ao Ministério das Relações Exteriores a sua condução por delegação da presidência. Aliás, ordenamento a que estão sujeitos todos os demais ministérios.
A dependência constitucional de todos os ministérios à Presidência da República se manifesta no próprio ato presidencial de escolha e eventual demissão dos ocupantes de suas respectivas chefias.
Ademais, é preciso atentar para um suposto presente nesta postura, qual seja, a de que haveria uma separação estanque entre burocracia e política, pertencendo o Itamaraty ao primeiro campo. Assim, com base na tese de que à esfera política caberia a definição das prioridades e rumos e à esfera administrativa caberia apenas sua implementação, o Itamaraty não teria poder de agencia.
No entanto, é justamente em virtude de sua ampla e reconhecida autonomia reforçada pela especialização dos seus quadros e pela ausência de um controle vertical de suas atividades, que torna esta instituição um fortíssimo grupo de poder estratégico, fazendo com que a recusa em se assumir como ator político leve a opinião pública a desconhecer que tanto sua ação, como sua inação constituem-se, em última análise, em escolhas políticas.
Segundo esta mesma matéria do jornal Valor, a postura do Itamaraty é consensual entre os embaixadores mais experientes que não desejam colocar em questão o "prestígio da Casa de Rio Branco" em uma "disputa que julgam ser política e partidária". Arguir pela justeza da posição de neutralidade porque a disputa é política e partidária reforça a separação estanque entre burocracia e política acima aludida, com a qual não compartilhamos.
À parte isso, não custa lembrar que o alegado prestígio da Casa de Rio Branco defendido pelos tais embaixadores não foi adquirido tão somente pela história institucional da Casa, mas também - e principalmente – pela natureza das decisões e políticas dos governos que as deliberaram, conduzidas com profissionalismo e competência pelo Itamaraty.
Exemplo disto é que o giro do chanceler Vieira pela África às vésperas da votação do impeachment na Câmara dos Deputados, buscava justamente resguardar o protagonismo que a região adquiriu na agenda da política externa brasileira por determinação de um governo do qual a administração agora sob ameaça de impeachment é sucessora, e não como decorrência de uma  orientação particular da  Casa de Rio Branco.
Se o chanceler hoje a defende como se fosse uma política de Estado é porque a mesma nasceu como política de um determinado governo com mandato popular e soberano para tanto.
Por fim, mesmo que não tenha sido esta a intenção, a justificativa alegada para que o Itamaraty se mantenha distante deste processo, qual seja, a percepção de que seria uma disputa política e partidária, acaba por legitimar a razão específica para se arguir pela ilegalidade do processo de impeachment, isto é, a de que se trata de um processo político e partidário.
Se estas são razões legítimas a endossar um processo de impeachment nos regimes parlamentaristas, no presidencialismo apear do poder alguém eleito pelo voto majoritário só pode ocorrer quando existem ponderáveis razões jurídicas e legais.

*Leticia Pinheiro é Pesquisadora IESP/UERJ. Maria Regina Soares de Lima é Pesquisadora Senior IESP/UERJ. Integrantes do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

Jornal do Commercio do RJ: encerrado a quase 200 anos de existência

Jornal do Commercio encerra atividades após quase 200 anos

POR AGÊNCIA BRASIL | 29/04/2016 19:27

Fundado pelo francês Pierre Plancher em 1827, veículo foi comprado pelo Grupo Diários Associados em 1959. A publicação é a mais antiga do Rio e a segunda mais antiga do Brasil.

Jornal do Commercio e o Diário Mercantil, do Grupo Diários Associados, encerraram hoje (29) suas atividades. Fundado pelo francês Pierre Plancher em 1º de outubro de 1827, o Jornal do Commercio foi comprado pelo Grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand, em 1959. A publicação é a mais antiga do Rio e a segunda mais antiga do Brasil, depois do Diário de Pernambuco.
Na capa da edição de hoje (29), o jornal ressalta que é o veículo de comunicação há mais tempo em circulação ininterrupta no país. “Nesses quase dois séculos foi testemunho de todos os episódios que marcaram a história”, diz o comunicado aos leitores. O texto também lembra que o veículo sobreviveu às mais “severas e dolorosas” crises políticas da sociedade brasileira, mas que não teve êxito em superar a atual crise financeira, que classificou como a “mais dramática e mortífera já vivenciada pelo país”.
“Não foi possível suportar a tempestade dentro da qual o Brasil, ferido, se debate, e que deu seus primeiros sinais em 2014”, diz o comunicado, que também homenageia funcionários, leitores, anunciantes e fornecedores. A edição online do Jornal do Commercio também foi extinta.
Jornal do Commercio surgiu com foco na economia, com base nas publicações Preços CorrentesNotícias Marítimas e Movimento de Importação e Exportação, editadas por Plancher desde sua chegada ao Rio.
Várias personalidades colaboraram para o jornal ao longo de quase 200 anos, entre elas, Dom Pedro II, Rui Barbosa, José Veríssimo, Visconde de Taunay, Alcindo Guanabara, Barão do Rio Branco e Félix Pacheco. No fim de 2015, o Grupo Diários Associados fechou a Rádio Nativa FM. A Rádio Tupi é o único veículo do conglomerado no Rio de Janeiro que continua funcionando.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

O estudo das relacoes internacionais do Brasil: revisitando os ultimos dez anos - Paulo Roberto de Almeida


O estudo das relações internacionais no Brasil

Paulo Roberto de Almeida
 [Notas para uma entrevista concedida a Alessandro Candeas, feita em 29/04/2016, no Anexo II do Itamaraty; para divulgação em arquivo de vídeo pelo IPRI-Funag.] 


Tendo exercido, voluntária e episodicamente, desde o início dos anos 1990, atividades didáticas e de pesquisa em diversos campos das relações internacionais do Brasil, e tendo também elaborado alguns trabalhos de história diplomática do nosso país, o que igualmente incluiu resenhas críticas das mais importantes obras publicadas nesses campos, creio possuir alguma autoridade acadêmica, ou puramente pessoal, para pronunciar-me sobre essa produção intelectual desde a primeira publicação de um livro meu que traz exatamente esse título: O Estudo das Relações Internacionais do Brasil (Brasília: LGE Editora, 2006).
Cabe primeiramente esclarecer que o livro que leva esse título, tendo como subtítulo “um diálogo entre a diplomacia e a academia”, tinha sido publicado uma primeira vez em 1999, como resultado de aulas e palestras que eu havia ministrado no imediato seguimento de um outro livro meu, publicado em 1998, chamado, precisamente Relações internacionais e política externa do Brasil: dos descobrimentos à globalização (Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1998). Tendo continuado a exercer atividades didáticas e continuado a pesquisar nesses diferentes terrenos no período imediatamente subsequente publiquei, logo em seguida, o livro que pode ser considerado a primeira edição dessa obra, intitulada apenas O Estudo das Relações Internacionais do Brasil (São Paulo: Editora da Universidade São Marcos, 1999), justamente no seguimento de cursos que eu havia ministrado naquela instituição de São Paulo. Entre a primeira e a segunda edição, diversos capítulos foram revistos, atualizados, expandidos, alguns suprimidos, outros acrescentados. Nele já constava um capítulo sobre “A produção brasileira em relações internacionais: tendências e perspectivas”, que tratava justamente das obras mais relevantes no campo desde épocas pretéritas até os anos 1990.
Esse texto descritivo e analítico foi transposto para o livro de 2006, como primeiro capítulo, tendo recebido o conceito de “avaliação” no seu subtítulo, o que indicava justamente o esforço de exame qualitativo de cada uma das obras ali consideradas. Desde então, não voltei mais a atualizar esse trabalho, que certamente mereceria complemento analítico e descritivo, com base na produção acumulada nos últimos dez anos, mas a tarefa foi, de certa forma, coberta em outros trabalhos e livros publicados desde então. Por exemplo, em meu livro Relações internacionais e política externa do Brasil: a diplomacia brasileira no contexto da globalização (Rio de Janeiro: LTC, 2012), retomo um trabalho pioneiro que havia publicado pela primeira vez em 1992, na revista Contexto Internacional, num plano bem mais metodológico do que propriamente substantivo, inaugurando esse livro e intitulado “Introdução ao Estudo das Relações Internacionais do Brasil”, imediatamente seguido por um outro, chamado “Historiografia Brasileira de Relações Internacionais”, no qual percorro a longa lista de grandes autores e obras decisivas no campo puramente historiográfico – e menos em ciência política – desde Pandiá Calógeras até as contribuições mais recentes de diplomatas e acadêmicos, passando por Hélio Vianna, Delgado de Carvalho (cuja História Diplomática do Brasil, de 1959, fiz reeditar facsimilarmente pela Editora do Senado), o manual bastante conhecido de História da Política Exterior do Brasil, de Amado Cervo e Clodoaldo Bueno, e uma recuperação por Ricardo Seitenfus de aulas dadas no Instituto Rio Branco nos anos 1950 pelo historiador José Honório Rodrigues (até a gestão Rio Branco), que ele complementou até o ingresso do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Esse meu livro também comporta uma extensa bibliografia de todas as obras relevantes publicadas até 2012.
Não cabe mencionar aqui muitos outros artigos que publiquei em diversas revistas nessa mesma problemática, com destaque para a Revista Brasileira de Política Internacional, da qual sou editor-adjunto, e a já referida Contexto Internacional. Mas cabe, sim, mencionar que mantenho, desde 2004, a seção “Prata da Casa” na revista da ADB, Associação dos Diplomatas Brasileiros, na qual faço curtas notas sobre os livros (em todos os gêneros) de diplomatas, em sua grande maioria teses do Curso de Altos Estudos, e portanto publicados não exatamente pelos diplomatas em edições comerciais, mas pela Fundação Alexandre de Gusmão (o que não subtrai em nada sua qualidade). Essas muitas dezenas de “miniresenhas”, junto com diversas resenhas críticas, bem mais longas, de livros de diplomatas e não diplomatas, sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil, bem como sobre assuntos da política internacional e da economia mundial, foram por mim coletadas em livros digitais livremente disponíveis em plataformas de cooperação acadêmica, como Academia.edu ou Research Gate, com títulos sugestivos: Prata da Casa: os livros dos diplomatas (Edição de Autor; Versão de: 16/07/2014; completo), Polindo a Prata da Casa: mini-resenhas de livros de diplomatas (Amazon Digital Services: Kindle edition, 2014), Codex Diplomaticus Brasiliensis: livros de diplomatas brasileiros (Hartford, Edição de Autor, 2014) e uma compilação digital das resenhas de livro de não-diplomatas Rompendo Fronteiras: a Academia pensa a Diplomacia (Hartford, Edição de Autor, 2014).
Creio, assim, estar plenamente habilitado a discorrer sobre a produção de acadêmicos e diplomatas brasileiros nas diversas áreas setoriais das RRII do Brasil, muito embora eu não seja um pesquisador em tempo integral – tendo de dividir o meu tempo entre atividades profissionais e estudos voluntariamente conduzidos nas horas vagas – e não exercendo sequer uma atividade didática nessa área específica, uma vez que, desde mais de dez anos divido minhas atividades diplomáticas com a função de professor de Economia Política nos programas de mestrado e doutorado em Direito do Centro Universitário de Brasília (Uniceub). Mas é a partir desse patrimônio de estudos e publicações acumuladas desde pouco mais de três décadas, coincidentes com minha carreira diplomática, que posso manifestar-me a respeito dessa temática, a partir do roteiro muito bem traçado de perguntas formuladas por meu colega e amigo Alessandro Warley Candeas, diretor do IPRI-Funag.

1) Como evoluiu a produção do conhecimento na área de RRII no Brasil nas últimas 2 décadas?

Ela acompanhou, de certa forma, a expansão dos cursos de RRII em nível de graduação, bem como o surgimento de diversos programas de mestrado em universidades públicas já possuindo uma graduação nesse campo (as faculdades particulares, mais numerosas na oferta de cursos de graduação, não se lançam, em sua grande maioria, nos estudos pós-graduados stricto senso, embora possam fazê-lo no tipo lato senso ou cursos de extensão mais genéricos ou focados em áreas mais operacionais, tipo administração de negócios ou comércio exterior). Não tenho certeza de que se possa falar concretamente de “produção de conhecimento”, pois isso implicaria que a pesquisa nessa campo tenha avançado tanto quanto a multiplicação de cursos em nível de graduação, nos quais a transpiração costuma ser bem maior do que a inspiração.
Em todo caso, os professores desses cursos tentam se posicionar numa escala mais favorável nos indicadores de produtividade – bem mais quantitativos do que propriamente qualitativos – que lhes possam permitir um belo currículo Lattes, ou a conhecida distinção entre os pares. O grande elemento propulsor, aqui, foi a constituição da ABRI, em 2005, e seu desenvolvimento satisfatório desde então, muito embora, antes de sua aparição, a realização dos encontros anuais da ENERI ou FENERI tenha oferecido uma boa plataforma para a apresentação de trabalhos, contatos com palestrantes brasileiros e conferencistas estrangeiros. Cabe reconhecer o papel da ABRI no aperfeiçoamento dos padrões de qualidade na pesquisa e interação entre os atores da área, professores, alunos, alguns diplomatas ou personalidades da vida civil com alguma atuação prática no campo das RRII do Brasil.
As “semanas de RRII” nas faculdades, em número bem mais restrito do que o volume de cursos, também ofereceram espaço para o aprofundamento de alguns temas desse campo, congregando o público interno e alguns estudiosos externos, servindo também, tanto quanto os encontros da ABRI, para a divulgação de obras produzidas pelos pesquisadores brasileiros ou edições brasileiras das obras estrangeiras mais conhecidas e já utilizadas. Os cursos de RRII, por sua vez, ascenderam quase exponencialmente no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, para bater no teto do mercado, em meados dessa data, para começar a diminuir lentamente a partir daí, mas se trata de um fenômeno típico de oferta e demanda em função das oportunidades ainda relativamente modestas de emprego nessa área (lembrando que a profissão não se encontra regulada em formato de reserva de mercado para “internacionalistas” e não parece haver chance de a hipótese se concretize).
Editoras universitárias ou comerciais passaram a lançar maior volume de livros didáticos de RRII, ou obras gerais dentro do campo, mas o fenômeno editorial mais relevante, com grande intensidade nos últimos dez anos, foi a ascensão da Funag como a maior editora e distribuidora (gratuitamente nas versões digitais) de um alto volume de obras a cada ano. Esse fenômeno é provavelmente tão importante quanto a expansão da diplomacia – no plano funcional corporativo – e da política externa brasileira nos anos aparentemente gloriosos dos governos lulopetistas no Brasil, a partir de 2003. O grande ativismo – alguns diriam a pirotecnia diplomática – conduzido pelo próprio Lula e por seu chanceler foi um grande elemento de propulsão do interesse pela carreira e pelos estudos de RRII nesse período, inclusive porque grande parte da produção acadêmica nesse terreno se dedica mesmo às etapas contemporâneas da diplomacia brasileira.
Em resumo, a produção de conhecimento na área de RRII se densificou, se consolidou, e ao mesmo tempo se diversificou (o que parece óbvio e natural), com a multiplicação de revistas, de seminários, de encontros de pesquisa e de debates, com o aumento da oferta de livros e outros recursos livremente disponíveis, mas não existem ainda condições para se fazer um mapeamento metodológico muito preciso de todas as tendências observadas nos últimos vinte anos, que foram certamente ricas, mas precisam ser avaliadas nas suas diversas categorias analíticas e metodológicas. Talvez o IPRI pudesse promover um encontro de discussão sobre a questão.

2) Quais os principais eixos analíticos e temas?

Existem duas grandes áreas de trabalho, ou seja, de pesquisa e de produção de contribuições significativas nas RRII: a história e a ciência política, ou de ciências sociais, num sentido mais amplo (compreendendo, digamos, sociologia política ou relações econômicas internacionais, esta aqui bem menos explorada na pesquisa ou nas publicações especializadas. Em ambas as dimensões mais relevantes, existem estudos monográficos, de amplo escopo analítico (ou de síntese), trabalhos diacrônicos (ou seja, históricos), e em cada uma delas, o Brasil, sua diplomacia e suas relações exteriores, também chamada de política externa, constituem naturalmente os objetos centrais dos trabalhos de pesquisa e de elaboração na academia brasileira. Mais raros, embora também existam, são os trabalhos na perspectiva comparativa, seja com vizinhos que de fato possuem elementos comparáveis, como a Argentina, por exemplo, seja com grupos ou blocos artificialmente reunidos, como pode ser o Brics, uma assemblagem bizarra de cinco países totalmente díspares em suas características próprias, mas unidos num mesmo foro apenas por iniciativa diplomática de duvidosa racionalidade.
Os temas geralmente tangenciam a grande agenda da diplomacia brasileira: as relações bilaterais (especialmente com grandes atores mundiais), a integração regional (com destaque para o Mercosul), o multilateralismo político (com ênfase na ONU e seu Conselho de Segurança), os novos temas da cooperação internacional (como energia ou meio ambiente, por exemplo) e os das negociações comerciais multilaterais ou mesmo “minilaterais” (bilaterais ou regionais).

3) Quais as principais orientações teórico-metodológicas?

Não existe muita unidade teórico-metodológica nos trabalhos de RRII produzidos no Brasil, pelo menos numa avaliação superficial da literatura publicada, em formato de artigos ou de livros. Manuais à parte – e eles são poucos, inexistindo aqui o modelo dos textbooks muito usados nas academias dos EUA ou da Europa – os textos singulares publicados evidenciam grande diversidade nos métodos de abordagem e nos chamados “marcos teóricos” utilizados, por vezes mais para responder a uma demanda expressa de algum orientador do que a decisões voluntárias daqueles que trabalham nessas áreas. Em situações “normais” de ensino e pesquisa, e em condições normais de exercício da atividade diplomática, a academia brasileira formulou suas próprias orientações em matéria de metodologia dos trabalhos publicados, havido preferência, durante certo momento, pelos estudos em torno da “diplomacia do desenvolvimento”, juntos ou separados com trabalhos sobre as relações com os principais atores nessa equação, os Estados Unidos ou países europeus.
Mas ocorreu, também, a importação de modelos estrangeiros, seja no terreno da história – onde o conceito de “forças profundas”, recolhido em Renouvin, fez sucesso a partir da sua disseminação por um professor renomado como Amado Cervo – ou no da ciência política – como o de Soft Power, aparentemente uma compensação teórica, no nosso caso, por ser um país sem maior dotação de poder material. Aparentemente, no Brasil já fizemos a nossa “substituição de importações” nos estudos de RRII, o que não garante, no entanto, que os novos conceitos e orientações sejam metodologicamente fundamentados e logicamente consistentes. Um dos grandes fantasmas não só dos estudos, em si, mas da própria atividade diplomática e até da postura internacional do Brasil, é a famosa “busca pela autonomia”, talvez uma espécie de compensação psicológica justamente em virtude da pouca autonomia do Brasil na dotação real de fatores de poder, o que se chama de “capacidades”, ou capabilities.
É provavelmente devido a essa obsessão com a autonomia da política nacional, externa ou na área econômica, que o conceito de soberania também é extremamente valorizado na ideologia diplomática nacional. A construção da autonomia, ou da afirmação soberana do país no cenário internacional, emerge naturalmente com o nacionalismo econômico no decurso do século 20, até chegar à sua versão algo caricatural na chamada diplomacia altiva, aquela que se afirmaria de forma autônoma, ou seja, sem a tutela do imperialismo, esse tigre de papel de todos os esquerdistas que se acreditam defensores da soberania nacional, quando na maior parte das vezes estão contribuindo para a introversão econômica e o provincianismo diplomático.

4) Quais autores e obras de maior impacto?

Efetuar uma seleção de obras ou de autores é extremamente arriscado, pois sempre se corre o risco de cometer alguma injustiça com autores consagrados, ou até com autores menos conhecidos que ofereceram trabalhos de alta qualidade, mas que se tornaram menos divulgados por razões diversas. Entre os diplomatas, alguns nomes se tornaram ícones da produção com pretensões a servir de referência nos estudos de área. Pode-se mencionar, por exemplo, Gelson Fonseca, na área da ciência política, ou das relações internacionais sentido estrito. Entre os não diplomatas, o cientista político e ex-chanceler Celso Lafer também produziu uma obra relevante, feita de estudos teóricos, de reflexões sobre os grandes temas de negociações internacionais de que participou (e dos quais foi, muitas vezes, formulador) e de incontáveis artigos de imprensa sobre os mais diversos temas da agenda internacional do Brasil e da realidade política mundial.
Entre os diplomatas, existem incontáveis trabalhos preparados no âmbito do Curso de Altos Estudos do IRBr, e uma seleção certamente implicaria certa dose de arbítrio na indicação dos melhores (que de toda forma foram publicados pela Funag e registrados em minha seção Prata da Casa da revista da ADB e compilados em meus livros digitais de resenhas de livros de diplomatas. Obras produzidas paralelamente a esse âmbito ou fora do ambiente funcional, mas ainda assim atinentes ao universo da diplomacia brasileira podem ser destacadas nos exemplos a seguir: Luis Cláudio Villafañe Gomes Santos tem produzido trabalhos muito consistentes no terreno da história diplomática brasileira, em especial no período imperial e primeira República. Fernando Mello Barreto produziu uma sequência de três grandes obras, resumindo a atuação diplomática de todos os chanceleres da República a partir de Rio Branco até a atualidade, na gestão Celso Amorim, que aliás ofereceu diversas contribuições tanto no terreno memorialístico, como de reflexão sobre sua atividade em diversas grandes temas da política exterior brasileira, tendo tido uma longevidade como chanceler (em duas administrações) que ultrapassou a até então a mais longeva, a do Barão do Rio Branco. Eugênio Vargas Garcia, historiador, trabalhou com grande competência a história (e a pré-história) do multilateralismo brasileiro, em trabalhos de pesquisa sobre a Liga das Nações, sobre a política externa brasileira no entre-guerras e sobre a participação do Brasil na criação da ONU, ademais de ter editado compêndios de documentos históricos e uma cronologia das relações internacionais do Brasil.
Caberia incluir nesse cômputo minha própria contribuição, sob a forma de diversos livros de relações econômicas internacionais, em especial o livro de pesquisa histórica, Formação da diplomacia econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (em duas edições pela Editora Senac- São Paulo, 2001 e 2005). Ainda no terreno da história, não se pode descurar alguns dos livros do diplomata historiador pernambucano Evaldo Cabral de Melo, em especial O Negócio do Brasil, que trata da “recompra” do Nordeste por Portugal aos Países Baixos. Os embaixadores Rubens Ricupero, Luiz Felipe Seixas Correa, Samuel Pinheiro Guimarães e Rubens Barbosa também produziram trabalhos dignos de registro em qualquer compilação de obras de diplomatas, assim como o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia, tanto no terreno das memórias como no da análise de questões da atualidade diplomática (atividade também reproduzida em veículos digitais e artigos de jornais).
Entre os não diplomatas, destacam-se, obviamente, as diversas edições do livro de Amado Cervo e Clodoaldo Bueno sobre a História da Política Exterior do Brasil, bem como diversos trabalhos organizados ou escritos por Henrique Altemani e Antonio Carlos Lessa, entre eles a obra de referência organizada por ambos, Relações internacionais do Brasil, ademais de coleções editadas no âmbito do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (que edita a Revista Brasileira de Política Internacional), do próprio IRel-UnB, ou com editoras comerciais. Registre-se igualmente o ativismo de acadêmicos como Paulo Vizentini, Demetrio Magnoli, Moniz Bandeira, Francisco Doratioto, Ricardo Seitenfus, Tullo Vigevani ou ainda o eminente jurista Antonio Augusto Cançado Trindade, autor de imponente obra no campo do direito internacional e juiz da Corte da Haia.
Cabe aqui uma digressão pessoal quanto ao que me parecem ser as orientações da produção brasileira em RRII segundo a afiliação institucional de seus “produtores”, e se pode aqui distinguir essa comunidade razoavelmente heteróclita – pois que feita de profissionais e de “amadores” da diplomacia – como constituída, grosso modo, de agentes da diplomacia real, que também se dedicam às artes da escrita independente, e de analistas externos, ou seja, todos os acadêmicos e jornalistas, ou quaisquer outros observadores não profissionais da diplomacia, que também se ocupam de descrever, analisar, interpretar os aspectos mais relevantes da política externa do Brasil ou as características da política internacional, incluindo aqui os arqueólogos das relações internacionais, ou seja, historiadores da diplomacia brasileira de eras passadas ou da política mundial ou regional segundo escolhas pessoais.
As orientações da diplomacia profissional, tal como reveladas num exame mesmo perfunctório dos trabalhos por ela publicados (textos resultantes dos Cursos de Altos Estudos em sua vasta maioria), são obviamente quase que um espelho fiel das orientações conjunturais dessa diplomacia, ou seja, da política externa do governo em vigor. Não poderia ser de outro modo: diplomatas são, na grande maioria dos casos, seres perfeitamente imbuídos de princípios e valores da diplomacia tradicional, que por vezes se deixam arrastar por inclinações temporárias ou opções políticas momentâneas, e se guiam, salvo em poucos casos “libertários” (por sua própria conta e risco) pelas duas características sempre repetidas como fazendo parte do padrão comportamental da corporação (tanto quanto para os militares e membros da Igreja Católica): hierarquia e disciplina. Não se pode esperar, assim, que as análises e propostas de políticas feitas por esses profissionais se afastem muito do cânon do momento, ou do governo.
Quanto à academia e ao jornalismo especializado em RRII seria de se esperar uma maior diversidade de opiniões, de metodologias, de orientações políticas e de posturas quanto às políticas concretas que caberia adotar na frente externa das políticas públicas, o que de certo modo ocorria até algumas décadas atrás. Desde o início do milênio, porém, não por acaso coincidente com o governo do PT no Brasil, amplamente bem acolhido, saudado e elogiado por vastos setores da comunidade acadêmica, não foi o que ocorreu e o que se observou nestes anos todos, com uma ampla aceitação, até entusiástica, por parte da academia brasileira, sobretudo (e isso é óbvio) por parte dos professores das faculdades de humanidades em geral, com destaque até para os da área específica de RRII. A falta de senso crítico quanto aos aspectos nefastos, histriônicos e até danosos ou criminosos da diplomacia lulopetista em relação sobretudo a “aliados” regionais, inclusive as piores ditaduras do continente e de outras regiões. Que isso se tenha tornado tão evidente, aos olhos de todos – com os empréstimos ditos “secretos” a algumas dessas ditaduras, por exemplo, em total desrespeito ao Senado Federal e à Constituição – e que isso não tenha despertado o espírito crítico dos acadêmicos, é uma realidade que fere a consciência não só da cidadania organizada, como deveria chamar a atenção de qualquer acadêmico dotado apenas de senso de equilíbrio e espírito crítico.
Estas observações são importantes porque elas revelam uma característica que se tornou marca registrada de grande parte da produção acadêmica durante os anos do lulopetismo diplomático: a adesão acrítica – e até imoral no caso das ditaduras – à tal de diplomacia ativa e altiva que possui aspectos obscuros que não foram e talvez não sejam jamais revelados em todos os seus matizes e fundamentação documental. O que é ainda mais surpreendente é que esses acadêmicos tenham baseado seus argumentos apenas nas declarações do próprio governo, sem o cuidado – que deveria ser uma condição essencial do trabalho acadêmico – de ir buscar fontes independentes, ou de aferir quanto ao resultado dessas políticas no mundo real, ou seja, distante das declarações oficiais e sem embasamento num volume adequado de dados empíricos quanto aos resultados e efeitos concretos dessas políticas – do tipo Sul-Sul, politização do Mercosul, aliança com certos parceiros escolhidos apenas por suas posturas antiocidentais – e sua própria adequação aos objetivos iniciais (reforço do Mercosul, ingresso no Conselho de Segurança, conclusão de negociações comerciais, por exemplo, todos frustrados).

5) Em termos comparativos com os Estados Unidos e a Europa, como a produção brasileira recente se situa? É possível falar em uma contribuição nacional específica para o avanço nessa disciplina?

Difícil fazer uma comparação nessa área, pois a nossa produção ainda é muito incipiente quando confrontada à diversidade e quantidade dos trabalhos de todos os tipos produzidos nos grandes centros acadêmicos, think tanks e mesmo de governos nas duas grandes massas democráticas e de conhecimento avançado do Atlântico norte. Os autores ali são prolíficos, sofisticados e atuantes em determinadas agendas diplomáticas, em função de uma osmose bem mais frequente e mais intensa com os serviços nacionais da área diplomática, de planejamento político e de inteligência, o que praticamente inexiste no Brasil, onde esses órgãos estatais são excessivamente introvertidos e pouco abertos à colaboração acadêmica na agenda efetiva das relações exteriores.

6) Quais são as tendências e perspectivas em RRII no Brasil e no mundo?

Esta é uma questão que exigiria uma elaboração bem mais cuidada e cuidadosa, do que a permitida neste espaço. Melhor deixar a questão para uma discussão mais elaborada em oportunidade futura. Entendo que uma aposta genérica possa se referir ao crescimento tanto organizacional quanto substantivo dessa área, tanto no plano puramente acadêmico, quanto sua crescente interação, talvez osmose futura, com os profissionais da diplomacia e outros agentes das posturas externas do Brasil (como os encarregados do comércio internacional, por exemplo, ou das finanças internacionais).
Ocorrerá, provavelmente, uma crescente diversificação das abordagens e dos objetos de trabalho, até num sentido ridiculamente adepto de vertentes analíticas baseadas no politicamente correto, como questão de gênero ou de minorias sociais na diplomacia, e várias outras metafísicas metodológicas. Mas uma análise consistente dessas possíveis tendências e perspectivas das RRII no Brasil depende de um balanço adequado do que foi efetuado até aqui e de alguns prognósticos que possam ser feitos, provavelmente de modo colaborativo, com base nesse balanço qualitativo dos últimos vinte anos. Pretendo dedicar-me a isto num futuro não muito distante, mas apenas e exclusivamente em relação ao Brasil, pois não tenho a pretensão de tentar abarcar os mesmos aspectos em relação às RRII no mundo.

Paulo Roberto de Almeida 
Brasília, 29 de abril de 2016


Atualizado em 29/04/2016

33) Going Global: Brazil and Latin America in International Context (em preparação, 2016).
32) Do passado para o presente: clássicos revisitados na perspectiva da modernidade (em preparação, 2016).
31) Nunca Antes na Diplomacia…: a política externa brasileira em tempos não convencionais (Curitiba: Editora Appris, e-book, 2016; link: https://editoraappris.lojasdot.com.br/produto/e-book-nunca-antes-na-diplomacia-a-politica-externa-brasileira-em-tempos-nao-convencionais).
30) Révolutions bourgeoises et modernisation capitaliste: Démocratie et autoritarisme au Brésil (Sarrebruck: Éditions Universitaires Européennes, 2015, 496 p.; ISBN: 978-3-8416-7391-6). divulgado no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2015/10/avant-propos-revolutions-bourgeoises-et.html). Relação de Originais n. 2863.
29) Die brasilianische Diplomatie aus historischer Sicht: Essays über die Auslandsbeziehungen und Außenpolitik Brasiliens (Saarbrücken: Akademiker Verlag, 2015, 204 p.; Übersetzung aus dem Portugiesischen ins Deutsche: Ulrich Dressel; ISBN: 978-3-639-86648-3).
28) O Panorama visto em Mundorama: Ensaios Irreverentes e Não Autorizados (Hartford: 2a. edição do autor, 2015, 294 p.; DOI: 10.13140/RG.2.1.4406.7682), available: Academia.edu; link: http://www.academia.edu/12038814/29_O_Panorama_Visto_em_Mundorama_2015_2a._edicao_).
27) Paralelos com o Meridiano 47: Ensaios Longitudinais e de Ampla Latitude (Hartford: edição do autor, 2015, 380 p.; DOI: 10.13140/RG.2.1.1916.4006; available: Academia.edu; link: https://www.academia.edu/11981135/28_Paralelos_com_o_Meridiano_47_ensaios_2015_).
26) Volta ao Mundo em 25 Ensaios: Relações Internacionais e Economia Mundial, Hartford, 5 novembro 2014, 110 p. Livro montado com base nos textos preparados para o site Ordem Livre em dezembro de 2009 e janeiro de 2010, e divulgados ao longo de 2010, e esporadicamente e aleatoriamente ulteriormente. Publicado como Kindle book (file size: 809 KB; ASIN: B00P9XAJA4; link: http://www.amazon.com/dp/B00P9XAJA4). Inserido na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/9126863/26_Volta_ao_Mundo_em_25_Ensaios_Rela%C3%A7%C3%B5es_Internacionais_e_Economia_Mundial_2014_). Researchgate.net (DOI: 10.13140/2.1.3057.5683). Divulgado no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2014/11/volta-ao-mundo-em-25-ensaios-relacoes.html). Relação de Originais n. 2712. Relação de Publicados n. 1149.
25) Rompendo Fronteiras: a Academia pensa a Diplomacia, Hartford, 4 novembro 2014, 414 p. Livro de resenhas de não-diplomatas, completando os dois anteriores na série de três derivados do Prata da Casa. Editado em formato Kindle (1202 KB, ASIN: B00P8JHT8Y; link: http://www.amazon.com/dp/B00P8JHT8Y). Researchgate.net (DOI: 10.13140/2.1.4106.1447). Disponibilizado na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/9108147/25_Rompendo_Fronteiras_a_academia_pensa_a_diplomacia_2014_). Informado no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2014/11/rompendo-fronteiras-academia-pensa.html). Relação de Originais n. 2710. Relação de Publicados n. 1148.
24) Codex Diplomaticus Brasiliensis: livros de diplomatas brasileiros, Hartford, Edição de Autor, 2014, 326 p. Livro digital, plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/9084111/24_Codex_Diplomaticus_Brasiliensis_livros_de_diplomatas_brasileiros_2014_). Kindle Edition (1117 KB; ASIN: B00P6261X2; link: http://www.amazon.com/dp/B00P6261X2). Researchgate.net (DOI: 10.13140/2.1.2008.9927). Relação de Originais n. 2707. Relação de Publicados n. 1147.
23) Polindo a Prata da Casa: mini-resenhas de livros de diplomatas (Amazon Digital Services: Kindle edition, 2014, 151 p. 484 KB; ASIN: B00OL05KYG; DOI: 10.13140/2.1.4630.4325; disponível na Amazon; link: http://www.amazon.com/dp/B00OL05KYG; e na plataforma Academia.edu; link: https://www.academia.edu/8815100/23_Polindo_a_Prata_da_Casa_mini-resenhas_de_livros_de_diplomatas_2014_). Prefácio e Sumário disponíveis no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2014/10/mini-resenhas-de-livros-de-diplomatas.html). Relação de Originais n. 2693. Relação de Publicados n. 1145.
22) Prata da Casa: os livros dos diplomatas (book reviews; Edição de Autor; Versão de: 16/07/2014, 663 p.; disponível nos links: Academia.edu: página do livro: https://www.academia.edu/5763121/Prata_da_Casa_os_livros_dos_diplomatas_Edicao_de_Autor_2014_; link direto para download do arquivo em pdf: https://www.academia.edu/attachments/34209509/download_file?s=work_strip&ct=MTQwNzAwODExOCwxNDA3MDExMjI5LDc4NTEwNjY; divulgado neste link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2014/07/prata-da-casa-os-livros-dos-diplomatas.html; disponível em Researchgate.net: https://www.researchgate.net/publication/269701236_Prata_da_Casa_os_livros_dos_diplomatas?ev=prf_pub; DOI: 10.13140/2.1.4908.9601). Relação de Originais n. 2533. Relação de Publicados n. 1136.
21) Nunca Antes na Diplomacia...: A política externa brasileira em tempos não convencionais (Curitiba: Editora Appris, 2014, 289 p.; ISBN: 978-85-8192-429-8); Hartford, 30 março 2104, 312 p. (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/6999273/21_Nunca_Antes_na_Diplomacia_a_politica_externa_brasileira_em_tempos_nao_convencionais). Relação de Originais n. 2596. Relação de Publicados n. 1133.
20) O Príncipe, revisitado: Maquiavel para os contemporâneos (Hartford, 8 Setembro 2013, 226 p. Revisão atualizada do livro de 2010) Publicado em formato Kindle (disponível: http://www.amazon.com/dp/B00F2AC146). (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/5547603/20_O_Principe_revisitado_Maquiavel_para_os_contemporaneos_2013_Kindle_edition). Relação de Originais n. 2512; Relação de Publicados n. 1111.
19) Integração Regional: uma introdução (São Paulo: Saraiva, 2013, 174 p.; ISBN: 978-85-02-19963-7; site da Editora: http://www.saraivauni.com.br/Obra.aspx?isbn=9788502199637). Relação de Originais ns. 2996, 2998, 2300, 2303, 2304, 2313, 2316, 2317, 2373, 2383, 2431, 2438 e 2449. Divulgado no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2013/04/integracao-regional-novo-livro-enfim.html). (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/attachments/32644653/download_file). Relação de Publicados n. 1093.
16) O Moderno Príncipe (Maquiavel revisitado) (versão impressa: edições do Senado Federal volume 147: Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2010, 195 p.; ISBN: 978-85-7018-343-9; link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/95MaquiavelRevisitado.html). (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/attachments/32642375/download_file). Relação de Originais n. 1804. Relação de Publicados n. 1014.
15) O Moderno Príncipe: Maquiavel revisitado (Rio de Janeiro: Freitas Bastos, edição eletrônica, 2009, 191 p.; ISBN: 978-85-99960-99-8; R$ 12,00; disponível para aquisição no seguinte link: http://freitasbas.lojatemporaria.com/o-moderno-principe.html). Anunciado no site pessoal (link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/95maquiavelrevisitado.html) e no blog Diplomatizzando (21.12.2009; link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2009/12/1591-novo-livro-pra-o-moderno-principe.html), com livre disponibilidade do Prefácio, da Dedicatória, da carta a Maquiavel e das Recomendações de Leitura. (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/5546980/15_O_Moderno_Principe_Maquiavel_revisitado_2009_e-pub). Relação de Originais n. 1804. Relação de Publicados n. 940.
14) O Estudo das Relações internacionais do Brasil: um diálogo entre a diplomacia e a academia (Brasília: LGE Editora, 2006, 385 p.; ISBN: 85-7238-271-2; link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/93EstudoRelaIntBr2006.html). (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/attachments/32642184/download_file).
12) Relações internacionais e política externa do Brasil: história e sociologia da diplomacia brasileira (2ª ed.: revista, ampliada e atualizada; Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004, 440 p.; coleção Relações internacionais e integração nº 1; ISBN: 85-7025-738-4; link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/74UFRGS2004.html). (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/attachments/32642325/download_file).
11) A Grande Mudança: consequências econômicas da transição política no Brasil (São Paulo: Editora Códex, 2003, 200 p.; ISBN: 85-7594-005-8; link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/58GrdeMudanca.html). (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/5546940/11_A_Grande_Mudanca_consequencias_economicas_da_transicao_politica_no_Brasil_2003_).
10) Une histoire du Brésil: pour comprendre le Brésil contemporain (avec Katia de Queiroz Mattoso; Paris: Editions L’Harmattan, 2002, 142 p.; ISBN: 2-7475-1453-6; link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/48HistoireBresil2002.html). (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/attachments/32642309/download_file).  
09) Os primeiros anos do século XXI: o Brasil e as relações internacionais contemporâneas (São Paulo: Editora Paz e Terra, 2002, 286 p.; ISBN: 85-219-0435-5; link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/45SeculoXXI2002.html). (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/attachments/32642303/download_file).
8) Formação da diplomacia econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (São Paulo: Editora Senac, 2001, 680 pp., ISBN: 85-7359-210-9; link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/44FDESenac2001.html). (Academia.edu, link: http://www.academia.edu/attachments/32642297/download_file).
7) Le Mercosud: un marché commun pour l’Amérique du Sud, Paris: L’Harmattan, 2000, 160 p.; ISBN: 2-7384-9350-5; link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/40Mercosud2000.html). (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/attachments/32642281/download_file).
6) O estudo das relações internacionais do Brasil (São Paulo: Editora da Universidade São Marcos, 1999, 300 p.; ISBN: 85-86022-23-3; link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/31EstudoRelaIntBr1999.html). (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/5546888/06_O_estudo_das_relacoes_internacionais_do_Brasil_1999_).
5) O Brasil e o multilateralismo econômico (Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, na coleção “Direito e Comércio Internacional”, 1999, 328 p.; ISBN: 85-7348-093-9; link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/30Multilateralismo1999.html). (Academia.edu, link: http://www.academia.edu/attachments/32642262/download_file).
4) Velhos e novos manifestos: o socialismo na era da globalização (São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 1999, 96 p.; ISBN: 85-7441-022-5; link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/29Manifestos1999.html). (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/attachments/32642256/download_file).
3) Mercosul: Fundamentos e Perspectivas (São Paulo: Editora LTr, 1998, 160 p.; ISBN: 85-7322-548-3; link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/26MercosulLTr1998.html). (Academia.edu, link: https://www.academia.edu/attachments/32642244/download_file).
2) Relações internacionais e política externa do Brasil: dos descobrimentos à globalização (Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1998, 360 p.; ISBN: 85-7025-455-5); link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/25RelaIntPExtUFRGS1998.html). (Academia.edu: https://www.academia.edu/attachments/32642231/download_file ).