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sexta-feira, 17 de março de 2017

Bob Fields, o desenvolvimentista interdependente - Sergio Eduardo Moreira Lima


‘Bob Fields’: o estigma, o diplomata e o Brasil

Artigo / SÉRGIO E. MOREIRA LIMA

Sérgio E. Moreira Lima é embaixador e presidente da Fundação Alexandre de Gusmão

O Globo, 16/03/2017


Dois momentos marcaram sua crença nas mudanças no mundo e no Brasil: o processo de integração europeia e o desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek

Arauto do liberalismo num Brasil marcado pela desigualdade social, paladino da convergência ideológica com os EUA num país que deveria buscar sua posição autônoma na ordem internacional são imputações a Roberto Campos. Respondem elas pelo estigma que marcou a irônica tradução para o inglês de seu nome, como forma de retirar a legitimidade de suas ideias e torná-lo estrangeiro. Essa visão dificilmente se sustentaria no tempo diante da densidade do homem e do seu compromisso com ideias, valores e com o futuro do Brasil.

Campos foi dos mais brilhantes pensadores brasileiros, um dos economistas e diplomatas mais influentes de sua geração. Suas ideias liberais sofreram críticas, que, sob o argumento nacionalista, as confundiam com atitude de “entreguismo”. Sua carreira diplomática ajudou-o na formação de sólida base acadêmica e profissional, acentuada por sua inteligência e pragmatismo. Esses atributos concorreram para o êxito de sua gestão como embaixador em Washington e fizeram com que sua contribuição fosse necessária à construção do Brasil moderno, lançando-o para além da Casa de Rio Branco, como ideólogo, ministro do Planejamento e estadista. Seu esforço tenaz foi livrar o Brasil da mediocridade e buscar na educação instrumentos de superação do subdesenvolvimento pela reestruturação econômica e institucional.

Para Campos, o Estado tornara-se demasiado grande para lidar com os pequenos problemas e demasiado pequeno para tratar das grandes questões. Revela o contraste entre o liberalismo do século XIX — com as reformas para criar riqueza via livre mercado —, com o período subsequente, “o século do coletivismo, o mais violento da história humana” e seus corolários, o dirigismo estatal e o comunismo. Conclui que a tarefa do século XXI será conciliar o mercado, no plano econômico, com a democracia, na vertente política.

Dois momentos marcaram sua crença nas mudanças no mundo e no Brasil: o processo de integração europeia e o desenvolvimentismo de Kubitschek. Manifestaria, porém, frustração, ao perceber que sua geração havia fracassado na tarefa de transformar o Brasil em potência em fins do século XX. Confessa perplexidade diante da vocação de pobreza de países ricos em recursos naturais, que, no caso brasileiro, não pode ser imposição da fatalidade. Atribui essa situação à inflação e à resistência à abertura internacional da economia brasileira.

Campos defendeu o Brasil como parte do sistema interamericano e criticou a “política externa independente”. Argumentava que a posição do Brasil não poderia ser de neutralidade, dado seu papel no sistema. Considerava que não estávamos em disponibilidade ideológica. Criticava a indiferença moral quando se contrapunham o valor supremo da liberdade e o totalitarismo.

Em sua visão, a política externa reflete opção nacional básica, que se expressava na fidelidade cultural e política ao sistema democrático ocidental, sem prejuízo da aferição de cada problema em termos de interesse nacional. Em resposta a seus críticos, Campos transcreve, em suas memórias, o trecho do discurso do presidente Castello Branco que ajudara a redigir:

“Não devemos dar adesão prévia às atitudes de qualquer das grandes potências — nem mesmo às potências guardiãs do mundo ocidental, pois que, na política externa destas, é necessário distinguir os interesses básicos da preservação do sistema ocidental dos interesses específicos de uma grande potência. (...) a política exterior é independente, no sentido de que independente deve ser, por força, a política de um país soberano. Política exterior independente, num mundo que se caracteriza cada vez mais pela interdependência dos problemas e dos interesses, significa que o Brasil deve ter seu próprio pensamento e sua própria ação, (...) não subordinados a nenhum interesse estranho ao do Brasil”.

O centenário de seu nascimento enseja reflexão sobre a importância de sua obra e análise isenta do mérito de suas ideias. Jamais podemos aceitar que o Brasil não esteja vocacionado à administração responsável e inovadora de sua abundância. Esta pôde contar com a dimensão de espaço e a diversidade de recursos naturais que representa a herança patrimonial da diplomacia brasileira, de Alexandre de Gusmão a Rio Branco.
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