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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Livros, livrarias, leituras: suplemento do jornal Valor - Joao Luiz Rosa (2/06/2017)

Um enredo de suspense
Por João Luiz Rosa | De São Paulo
Valor Econômico, 2 junho 2017

  

 Equipe da Todavia: de baixo para cima, Flavio Moura (editor), Ana Paula Hisayama (diretora de direitos autorais), Andre Conti (editor), Alfredo Setubal (editor), Leandro Sarmatz (editor) e Marcelo Levy (diretor comercial)

Para muita gente, ir à livraria tornou-se um programa recorrente nas grandes capitais. As pessoas caminham por entre as estantes, folheiam os livros, se deixam encantar pelas capas coloridas. Às vezes, aproveitam para tomar um café ou fazer um lanche rápido. Amigos conversam, casais se encontram, pais distraem os filhos. Parece o pano de fundo ideal para o negócio de qualquer editor ou livreiro, não fosse por um detalhe: boa parte desses consumidores sai sem comprar nada.
O fenômeno explica, pelo menos em parte, por que tantas lojas de livros continuam cheias, embora as vendas estejam em queda. Existem mais leitores que compradores de livros no Brasil. Em 2015, 56% da população se declarava leitora - ou seja, havia lido pelo menos um livro nos últimos três meses -, mas só 26% dissera ter comprado algum livro nesse período, segundo a pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil". O descompasso se explica pelo fato de que, para ler, há quem procure bibliotecas ou peça livros emprestados. Também é preciso levar em conta o papel da Bíblia. Lida por 42% da base de leitores (o que a torna o gênero favorito no país), ela não exige compras frequentes.
A falta de consumidores preocupa, claro, a cadeia editorial. No ano passado, o faturamento das editoras brasileiras caiu 5,2% em relação a 2015, levando em conta a inflação do período, de 6,3%, segundo levantamento da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Em termos nominais, sem considerar a inflação, ocorreu um aumento de 0,74%. Houve uma melhora em relação ao resultado anterior, que apresentara retração de 12,6% em termos reais, mas esse alívio não foi sentido por todo o setor. Isso porque o crescimento veio praticamente de uma única área - as vendas ao governo, que aumentaram 13,8%. "As compras governamentais ajudaram a equilibrar o desempenho geral, mas são capturadas por um número pequeno de editoras [aquelas que produzem livros didáticos e de referência]. Além disso, não passam pelas livrarias", diz Marcos da Veiga Pereira, dono da editora Sextante e presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel).
As livrarias, aliás, são o nervo mais exposto do mercado em queda. Desde que o comércio eletrônico começou a ganhar força, anos atrás, muitas redes passaram a investir no conceito das superlojas - espaços imensos e bem localizados capazes de abrigar cafés, restaurantes, auditórios, minilojas de eletrônicos etc. A princípio, a tendência parecia irreversível. O filme "Mensagem para Você" já brincava com o tema em 1998. Na história, Meg Ryan é a dona de uma pequena livraria em Nova York que se sente ameaçada pela chegada de uma grande rede comandada por Tom Hanks - uma referência clara à rápida expansão de grupos como Borders e Barnes & Noble.
Agora, os tempos são outros. A Borders faliu em 2011 e a Barnes & Noble reduziu de 798 para 640 o número de suas lojas entre 2008 e 2016. Em contrapartida, o número de livrarias independentes, fora das grandes redes, aumentou de 1.401 para 1.775 nos Estados Unidos de 2009 até o ano passado. Será que o modelo da superloja está perto do esgotamento?
No Brasil, algumas redes estão diminuindo o tamanho de suas lojas. A Livraria da Vila, com dez unidades no país, recentemente reduziu o espaço de duas delas em São Paulo - as dos luxuosos shoppings Cidade Jardim e JK Iguatemi. A primeira tinha 2,5 mil m2. A segunda, 1,7 mil m2. As lojas ficaram com pouco mais de 400 m2 cada uma. A Livraria Saraiva, com 110 lojas no país, está fazendo ajustes nas que estão com mais de 1,2 mil m2. Em São Paulo, uma loja de 1,4 mil m2 foi reduzida para 600 m2.
Mas é cedo para dizer que Meg Ryan tinha razão. Para os executivos das livrarias, cada rede tem seus próprios motivos para reduzir o tamanho das lojas - e seria um erro interpretá-los como uma tendência de mercado.
Na Saraiva, a redução tem atingido principalmente as seções de filmes e música, que foram muito afetadas pela concorrência dos meios digitais, como os serviços de streaming, diz Marcelo Ubriaco, vice-presidente da livraria. "Ainda somos relevantes nas duas áreas e não vamos tomar nenhuma atitude drástica, mas precisamos nos adaptar. Não dá mais para abrir espaços de 500 m2 para CDs e filmes."
   

Para Sergio Herz, presidente da Livraria Cultura, o que resta à loja física é proporcionar experiência ao consumidor


A situação é diferente na Livraria da Vila. "No nosso caso, foi uma decisão de voltar às origens, com lojas menores, mais aconchegantes", diz Samuel Seibel, proprietário da companhia, cuja primeira unidade, no bairro paulistano de Pinheiros, tem cerca de 700 m2. "Percebemos que as duas lojas [Cidade Jardim e JK] eram grandes demais, o que não fazia parte do nosso conceito. É preciso ser coerente com seu modelo [de negócio]. Saber de quanto espaço precisa para caber o que você quer oferecer."
Esse é, exatamente, o dilema das superlivrarias. Grandes lojas requerem gastos maciços com estoque, mão de obra, treinamento, aluguel, energia elétrica e uma longa lista de custos. Reduzir o tamanho pode ajudar a economizar no curto prazo, mas não no fim das contas não vai desestimular a frequência do consumidor? Por outro lado, vale a pena manter uma superestrutura apreciada pelos frequentadores, mas que não se traduz em vendas à altura?
A internet tem muito a ver com isso. "O cliente não precisa mais da loja física. O futuro das vendas está no comércio eletrônico", diz Sergio Herz, presidente da Livraria Cultura, com 18 unidades no país. "O nível de inteligência do mundo digital é tão alto que deixou o ponto físico praticamente acéfalo. O que resta à loja física é [proporcionar] experiência [ao consumidor]."
   

Para Otávio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras, o hábito de leitura mudou, mas não é um processo consolidado

Por experiência, explica o empresário, está a prestação de serviços. É o caso do Teatro Eva Herz, na loja da avenida Paulista, ou do restaurante Manioca, cujo acesso, no shopping Iguatemi, é feito por meio de uma loja da rede. Ambas as unidades estão em São Paulo. A estratégia da Cultura é dobrar as vendas de livros no site - dos atuais 30% da receita para cerca de 60% -, deixando aos pontos físicos a tarefa de fortalecer os vínculos do consumidor com a marca e proporcionar fontes adicionais de receita.
A dificuldade para o setor é como, em meio a uma das crises mais severas da história, aumentar o número de leitores em um país onde 30% das pessoas confessam não gostar de ler e outros 43% dizem "gostar um pouco", quase como uma concessão à literatura. Há consenso de que a crise é do varejo em geral, não só dos livros, embora o setor seja mais duramente atingido porque tem comportamento de mercado maduro - com evolução lenta ou retração - mas público pequeno, típico de mercados jovens.
Formar público não é fácil, nem rápido. Depende da adoção de políticas educacionais e de incentivo à leitura, que são responsabilidade do governo em suas várias esferas. Também é, em grande medida, uma questão de família. A mãe, ou a responsável do sexo feminino, é apontada como a principal influência no gosto pelo ato de ler, seguida pelo professor.
   

Seibel, da Livraria da Vila: de volta às origens

No dia a dia, o preço é frequentemente apontado como principal vilão das vendas. Nas rodas de amigos, alguém sempre comenta que livro custa caro no Brasil. Essa percepção, porém, é desmentida pelos números. Em uma década, entre 2006 e o ano passado, o preço médio do livro caiu de R$ 25,97 para R$ 17,09, em valores corrigidos pela inflação. Os dados se referem aos preços pagos pelas livrarias às editoras, não ao que sai do bolso do consumidor. Mas nesse caso também houve queda nos preços, até mais pronunciada dependendo do caso. Em 2004, um best-seller como "O Código Da Vinci" era vendido a R$ 39,90, diz Pereira, da Sextante. Com a inflação, um livro com características e tiragem semelhantes teria de custar, hoje, R$ 79,80, mas sai por cerca de R$ 50, uma perda de 40%, compara o empresário.
Fixar o preço de um livro é uma tarefa complexa. Há diversos custos incluídos - do papel ao pagamento dos direitos autorais, o que, dependendo do caso, requer fazer adiantamentos de três ou quatro anos para o escritor. Em geral, o preço é definido pela editora e vale para todo o território nacional, independentemente do custo do frete para o produto chegar às regiões mais distantes.
Com a estabilização econômica, anos atrás, o mercado passou a fazer correções discretas de preço ou, simplesmente, não repassar os custos para o leitor, diz Luís Antônio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL). A expectativa era aproveitar o bom momento para ampliar a base de leitores. Nas livrarias, o acirramento da competição levou muitas redes a conceder descontos cada vez maiores. Quando a crise chegou, os preços estavam reprimidos e o espaço para aumentá-los desaparecera. "Foi uma armadilha", afirma Torelli.
Uma das possibilidades para aliviar a situação é a chamada lei do preço fixo. De autoria da senadora Fátima Bezerra (PT/RN), o projeto de Lei nº 49/2015, em tramitação no Senado, estabelece que, durante um ano, os preços de capa não podem receber descontos superiores a 10%. Com o PL, o objetivo é criar condições de competição mais parecidas entre livrarias independentes, com poder de negociação menor, e as grandes redes. "Em vários países onde foi aplicada, [esse tipo de lei] alcançou resultados muito positivos, com redução do preço médio, aumento do número de livrarias e da diversidade cultural", diz Rui Campos, fundador e sócio da Livraria da Travessa, rede com oito unidades, sete no Rio e uma no interior de São Paulo. Muitos profissionais do setor veem a legislação com simpatia, mas ainda não há consenso sobre sua aplicação no país.



Outra questão é o modelo de consignação. Enquanto na maior parte dos setores os varejistas compram os produtos dos fabricantes para revendê-los ao consumidor, no mercado editorial prevalece a consignação - as livrarias recebem os livros, mas só pagam as editoras quando os vende. O restante é devolvido à editora. "É um modelo de posse, mas não de propriedade", diz Eugênio Foganholo, diretor da Mixxer Consultoria, especializada em varejo. Sob essas regras, o risco diminui, mas também a margem. A ameaça é que a administração das empresas não seja tão inovadora ou agressiva quanto poderia, porque o risco envolvido é menor. "Não se pode generalizar, mas esse é um gene da cadeia que acabou se voltando contra toda ela", diz o especialista.
Esse risco de acomodação é especialmente perigoso diante das novas gerações, marcadas pelo uso contínuo da tecnologia. Com a disseminação da internet, especialmente dos acessos móveis via smartphone, o público passou a ter muito mais opções de lazer e comunicação, o que abriu uma guerra pelo tempo das pessoas, especialmente dos mais jovens, que se acostumaram a fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Serviços de música e vídeo, jornais, revistas, redes sociais - todos disputam a atenção do usuário. O livro enfrenta um agravante: sua leitura exige dedicação exclusiva, um hábito contrário à tendência predominante de fragmentação.
  

 Em São Paulo, a Saraiva reduziu uma loja de 1,4 mil para 600 metros

"A cada época, cada geração, é preciso entender quem são seus leitores, quem vai comprar o livro", diz Jorge Oakim, dono da editora Intrínseca. A posição contrasta com uma corrente de pensamento mais pessimista, quase apocalíptica, segundo a qual o livro e o leitor estariam com os dias contados. "Hoje, uma criança de 13 anos assiste a séries de TV com inúmeras tramas paralelas, personagens secundários importantes, uma complexidade que não existia antes. É o tipo de coisa que pode ajudar a desenvolver uma forma de inteligência que não era estimulada até então", afirma Oakim.
A mudança de hábitos não significa, necessariamente, que haverá menos leitores. "As pessoas, hoje, estão mais aparelhadas para lidar com a dispersão. Elas leem mais, mesmo que de maneira fragmentada, entrecortada, nos intervalos", diz Otávio Marques da Costa, publisher da editora Companhia das Letras. "Não é um processo consolidado, mas o hábito de leitura mudou."
No exterior, muitas empresas têm investido em alternativas como o audiobook, na tentativa de criar espaços de introspecção em um mundo que estimula a dispersão. "[O audiobook] pode ser um complemento. Enquanto faz outra coisa, a pessoa 'escuta' um livro", afirma Costa. Só no ano passado, as vendas de audiobooks somaram US$ 2 bilhões nos EUA, com mais de cem editoras disputando o público.
   

“Criar um catálogo adequado é parte essencial do trabalho”, diz Palermo

No Brasil, muitos editores dizem que vêm encontrando, em bienais e feiras, um público jovem até mais interessado em literatura que as gerações anteriores. O setor tenta captar esse interesse. Nos últimos meses, vários livros escritos por "youtubers" chegaram aos primeiros lugares nas listas dos mais lidos. Há muitas dúvidas sobre se esse tipo de leitura serve de condutor para obras mais densas, mas a influência tem sido considerada um saldo positivo, tanto do ponto de vista comercial como de atração do público.
A Saraiva começou a testar, em algumas lojas, espaços destinados aos jovens. "Em vez de poltrona para leitura, estamos instalando mesas com tomadas", diz Ubriaco. A ideia é que eles se sintam à vontade em um ambiente onde seja fácil compartilhar informações e conectar seus dispositivos. A rede também não quer brigar com o comércio eletrônico. "Nossa visão é que são canais complementares. A ciência é acertar a complementariedade", afirma o executivo. A companhia percebeu, por exemplo, que muitos consumidores que faziam compras em seu site moravam na zona leste de São Paulo, o que a levou à decisão de abrir uma loja no Shopping Itaquera, que fica na região.
Transferir conceitos da web para as lojas físicas está no coração da estratégia da Livraria Cultura. A rede começou a aplicar um sistema de preço dinâmico no horário do almoço, quando muitas pessoas passeiam pelas lojas sem, necessariamente, comprar alguma coisa. Quando o cliente se identifica a um atendente, o sistema verifica seu perfil de compra e oferece preços promocionais. Com isso, o preço pode variar de loja para loja, de horário para horário e até de cliente para cliente. Os testes incluem 70 mil clientes por mês e vem rendendo bons resultados - a conversão média, ou seja, o número de pessoas que concretiza a compra, é de 3,5% e o valor médio da compra aumentou 40%. Além disso, a Cultura testa um site de livros usados (os valores se transformam em créditos para a compra de novos livros) e começou a negociar dados captados sobre o comportamento dos clientes - sem revelar, claro, quem são as pessoas - para outras empresas, como fazem as grandes companhias de internet.
  

 Pereira diz que compras do governo ajudaram a equilibrar o desempenho

A mudança nos hábitos do público tem levado a uma diversificação editorial, diz Daniel Mazini, diretor de livros impressos da Amazon no Brasil. "Trata-se de um reflexo da sociedade e não se aplica apenas aos livros. Hoje, as pessoas têm muito mais opções sobre o que querem consumir."
A Amazon lançou seu marketplace - um site no qual pessoas físicas e companhias podem vender livros novos ou usados - no início de abril. Desde então, mais de mil vendedores ingressaram na plataforma. "Há muitos livros de editoras que não conhecíamos e obras mais antigas", diz Mazini. O estoque da Amazon deu um salto. Em 2014, quando a companhia chegou ao Brasil, havia 90 mil livros em depósito. Mais recentemente, esse número aumentou para 150 mil. Com a criação do marketplace, o total aumentou para 250 mil quase da noite para o dia.
Criar um catálogo adequado é parte essencial do trabalho. "No caso de autores internacionais, você precisa avaliar se ele é adequado ao seu mercado. Em caso positivo, pode comprar [o título] antes ou depois de o autor fazer sucesso em seu país de origem", diz Mauro Palermo, diretor-geral da Globo Livros. A editora publica a obra da italiana Elena Ferrante, uma das autoras mais comentadas dos últimos tempos. "Compramos a Elena no meio do caminho, quando começava a ganhar importância na Itália e na Europa." Os livros se tornaram best-sellers, mas se isso não tivesse ocorrido, entraria no catálogo de qualquer jeito, diz Palermo. "A primeira avaliação é se o texto é bom." 
   

"A cada geração, é preciso entender quem são seus leitores", diz Oakin

Nos últimos meses, algumas notícias deixaram o mercado alarmado. A Livraria Cultura abriu negociações com fornecedores para estender os prazos de pagamento, o que deu origem a notícias de que a rede poderia ser comprada pela Saraiva. Ambas as empresas vieram a público na época negar que o assunto estivesse em discussão. Depois, a Fnac Darty publicou um relatório no qual os negócios no Brasil apareciam como "operação descontinuada", o que foi interpretado como uma saída iminente da rede. Dias depois, a companhia informou que procura sócios no país.
A despeito dos problemas do setor, profissionais da área estão otimistas com a retomada do negócio tão logo a economia se recupere um pouco. Novas iniciativas mostram que existe espaço para ocupar. Uma revista dedicada exclusivamente a livros - a "Quatro Cinco Um" - foi lançada, e a Livraria da Travessa vai abrir uma unidade na nova sede do Instituto Moreira Salles, na avenida Paulista, sua primeira unidade na capital paulista.
A maior novidade é a fundação da Editora Todavia. Criada por um grupo de profissionais experientes, vindos da Companhia das Letras, a empresa tem o apoio de três investidores de peso: Alfredo Setubal, presidente da holding Itaúsa; Guilherme Affonso Ferreira, do fundo Teorema; e Luiz Henrique Guerra, do fundo Indie. Os investimentos são pessoais, não das empresas.
"Sabemos dos percalços do mercado, mas a Todavia é um projeto de longo prazo", diz Flávio Moura, um dos sócios. "Não se pode olhar só para a conjuntura." Os primeiros quatro títulos da editora, mantidos em segredo, estão previstos para sair em agosto. Depois, o plano é lançar mais dois livros por mês até o fim do ano. Na segunda leva está previsto o lançamento de uma biografia do cantor Belchior, que morreu em abril.
Dado como morto várias vezes, não parece que o réquiem do livro vá ser tocado agora, seja por conta da crise ou de mudanças de comportamento do consumidor. O futuro, talvez, até convide mais gente à leitura. "Quem sabe com o carro autônomo, sem motorista, as pessoas usem o tempo das viagens para ler um livro", brinca Seibel.

Tatiana Salem Levy busca resistência ao pessimismo

Por Jacilio Saraiva | Para o Valor, de São Paulo
   

"Acreditar num mundo melhor é uma questão vital", diz a escritora Tatiana Salem Levy

Um mundo melhor passa pela leitura, literatura e pelo pensamento, segundo a escritora Tatiana Salem Levy, que lança "O Mundo Não Vai Acabar" (José Olympio, 182 págs. R$ 34,90), coletânea com mais de 30 crônicas. Colunista do Valor no caderno "EU&Fim de Semana" há três anos, a autora reúne no livro textos publicados no jornal entre maio de 2014 e janeiro de 2017, revistos e modificados, além de trabalhos inéditos. "Como a situação política no Brasil e no mundo está particularmente alarmante, achei importante selecionar escritos que relacionassem a literatura, a filosofia ou a antropologia com a política", afirma a escritora.
A obra é dividida em três partes. A primeira, "Tudo Nos Leva a Crer que Sim", trata de questões atuais, como o Brexit, a eleição do presidente americano Donald Trump, os atentados terroristas e o cenário nacional. A segunda parte, "Sem Memória, Não Há Presente", fala do tempo e do resgate de lembranças. Uma das maiores incapacidades do nosso país é conseguir ler e interpretar o passado, diz.
"Nunca conseguimos fazer um balanço do que foi a escravidão. Ao mesmo tempo, a ditadura aconteceu há pouco tempo, mas parece que nunca existiu", afirma. "A Argentina e o Chile souberam nomear e condenar suas ditaduras de uma forma que a gente nunca sonhou em fazer. Então, acho que o Brasil só vai melhorar o presente, apostar em ser de fato o país do futuro quando conseguir, antes, olhar para trás e ler o próprio passado."
A terceira parte do livro é centrada na literatura e na utopia. "Ouvimos cada vez mais que o mundo está acabando. Ou porque volta dois séculos na moral e fecha suas fronteiras, ou porque destruímos a natureza a tal ponto que acabaremos vítimas da nossa própria ambição", afirma Tatiana. "Mas, da mesma forma que a destruição faz parte da natureza humana, o sonho também faz. A capacidade de imaginar um mundo melhor e lutar por ele. Esse livro é uma resposta ao pessimismo que vem tomando conta de todos nós."
Autora dos romances "A Chave da Casa" (2007), "Dois Rios" (2011) e "Paraíso" (2014), além dos livros infantis "Curupira Pirapora" (2012) e "Tanto Mar" (2013), Tatiana tem obras traduzidas em mais de dez países, inclusive na Índia, Croácia e Suécia. Também é dela o ensaio "A Experiência do Fora: Blanchot, Foucault e Deleuze", fruto do mestrado em estudos de literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).
Nascida em Portugal, onde os pais se exilaram durante a ditadura militar brasileira, ela retornou ao país aos nove meses de idade. Há quatro anos, mora entre Lisboa e o Rio de Janeiro. "Mas, agora, do jeito que a coisa anda por aqui, provavelmente ficarei mais tempo em Portugal. Nunca tinha visto o Rio num estado tão calamitoso e Lisboa tão efervescente."
Para a ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura 2008, morar longe não influencia tanto no resultado do seu trabalho. "O que trago em mim do Brasil dá para muitos livros e é sempre a ele que volto quando escrevo", diz. "A diferença entre estar numa cidade ou em outra é que em Lisboa a vida é menos estressante, o tempo é mais qualitativo, rende mais. E isso é muito importante para a escrita. O tempo alargado de lá me ajuda a escrever."
Tatiana diz que tem outros projetos no cinema e na literatura, como um novo romance. "Mas está tudo ainda no começo", diz. "Segui carreira acadêmica durante anos, mas decidi largá-la. A coluna [no Valor ] foi uma forma de voltar ao que mais gostava de fazer na universidade: ler, pesquisar e escrever sobre o que leio", diz a autora, que estudou na Brown University, nos Estados Unidos, e na Universidade Paris III, na França. As experiências no exterior também a levaram a traduzir grandes obras. É dela e de Marcelo Jacques a elogiada versão para o português de "Nos Passos de Hannah Arendt", biografia de uma das mais importantes pensadoras do século XX, escrita pela francesa Laure Adler.
Na folga do trabalho de colunista e escritora, diz que tenta ler o terceiro volume da tetralogia de Elena Ferrante, "História de Quem Foge e de Quem Fica" (2016). "Falei tão bem sobre os dois primeiros livros, mas não estou conseguindo engrenar nesse terceiro", comenta. Também descobre mais sobre o autor carioca Victor Heringer. É com um texto que fala de um romance dele, "O Amor dos Homens Avulsos" (2016), que ela encerra a nova coletânea. "Além de escrever com muito domínio, Heringer propõe uma literatura do afeto, da ternura. Acredita que, onde há apocalipse, só o amor salva."
Sobre o título imperativo do livro, "O Mundo Não Vai Acabar", Tatiana defende que se trata de um grito de indignação com o presente, mas também com o derrotismo. "Acreditar num mundo melhor é uma questão vital", diz. "Talvez eu seja uma náufraga em pleno oceano, que fica falando de literatura enquanto o mundo agoniza. Mas fazer o quê, se acredito na capacidade da literatura de nos levar a imaginar, pensar e, a partir desse impulso, não deixar o mundo morrer?"

Paixão que chega ao fim

Por Cadão Volpato | Para o Valor, de São Paulo
   

O cenário da Nápoles do pós-Segunda Guerra Mundial, nos anos 50 e 60, é o pano de fundo da história de Lenu e Lila nos primeiros livros da "Série Napolitana", de Elena Ferrante

Para uma autora reclusa como Elena Ferrante, tem sido uma exposição e tanto. Quase ao mesmo tempo em que se conclui a publicação no Brasil de sua tetralogia napolitana, um repórter mais abusado resolveu desvendar o mistério que cerca a autora, cuja identidade real estava escondida até agora.
O repórter seguiu o clássico caminho do dinheiro, checou para onde iam os pagamentos da editora e aparentemente matou a charada, chegando ao nome de uma antiga tradutora da casa, cujos ganhos elevados seriam incompatíveis com a profissão. O nome real por trás de Elena Ferrante seria Anita Raja, mulher do escritor napolitano Domenico Starnone -acusado de ser Elena Ferrante ao longo dos anos.
O curioso é que isso acabou despertando a fúria dos fanáticos "ferrantistas", não muito interessados em deixar de acreditar na própria imagem mental que construíram da escritora tão amada. Na cabeça dos leitores fiéis mora mais do que uma figura, mora uma voz poderosa que se impõe sem remédio.
Uma vez, dizem por aí, submetidos ao feitiço da autora, os leitores caem no vício extremo, do qual não conseguem mais se recuperar. Ler Elena Ferrante acaba virando um vício que não tem cura. Os desavisados, aqueles que tentam se aproximar com cautela da mitológica escritora napolitana, apelam para um de seus romances mais fininhos, "Dias de Abandono" (Biblioteca Azul). Descobrem que cometeram um erro, pois o livro de 2002 é tão potente quanto os piores venenos, aqueles que costumam vir em pequenos frascos.
"Dias de Abandono" promove um mergulho abissal na alma de uma mulher ferida. Não dá para sair incólume da sua leitura. E aí será tarde demais. Aqueles que começaram por "A Amiga Genial" (também da Biblioteca Azul, como os demais volumes), já perderam as esperanças logo de cara: tiveram que aguardar a publicação de cada um dos outros livros, mesmo porque o conjunto se transforma em algo indivisível, e não resta outra saída a não ser esperar.
A coisa toda tem características de uma novela à moda antiga, em que um capítulo aponta para o outro e dele não se separa. Quem acompanhou desde o princípio essa história de amizade entre duas mulheres italianas - ou napolitanas, para ser mais preciso, já que Nápoles, assim como outras cidades da Itália, parece um outro país - foi capturado por uma voz de sereia incomum, a voz de um escritor de primeira grandeza, da espécie que se conecta com as nossas almas.
A amizade entre essas mulheres é feita de mel e fel, é humana como poucas vezes o leitor já encontrou na literatura, até mesmo aquela que pretende ser mais realista do que o rei. Ainda que seja tudo mentira, o que acontece entre Lenu, a narradora, e Lila, a personagem que de certa forma a espelha, é de uma honestidade brutal. Elas se amam e se odeiam, ficam juntas e separadas, e ainda assim mantêm-se próximas como um corpo único.
São mulheres em situações-limite. São personagens femininas num país corroído pelo machismo e dominado pelo crime dos homens. São mães devotas, mas também desnaturadas (mais desnaturadas que devotas). São invejosas e raivosas, egoístas e generosas, tudo isso reunido em parágrafos aliciantes, dos quais é impossível se desvencilhar.
Há quanto tempo não líamos histórias tão bem contadas e tão bem conduzidas, num ritmo elástico, ágil ou lento, reflexivo, introspectivo e ao mesmo tempo cheio de movimento e crueza? Talvez sejam esses alguns dos segredos desse romance dividido em quatro livros compridos, nos quais a palavra Camorra nunca aparece escrita com todas as letras, apenas o seu sombrio e poderoso significado de máfia napolitana. Neles, não há esquemas narrativos, mas figuras humanas, personagens com os quais é possível estabelecer conexões multifacetadas, sem as platitudes do "bem" e do "mal".
É um banho narrativo. Ninguém esperava, nessa altura do século XXI, que um Balzac desse as caras. Isso levando em conta a mais óbvia das constatações de quem se deixa expor ao universo belo e espinhoso de Elena Ferrante, seja ela quem for: não há a menor chance de a autora ser um homem. A Elena desse romance em quatro tomos é uma pessoa do sexo feminino que aprendemos a conhecer muito bem.
Seguindo pela ordem, a série começou a sair em 2011, com "A Amiga Genial", e prossegue com "História do Novo Sobrenome" (2012), seguida de "História de Quem Foge e de Quem Fica" (2013). As duas crescem juntas e seguem caminhos diferentes. Lenu sai de Nápoles, conhece outra vida e vira escritora, enquanto Lila permanece na cidade natal. Em "História da Menina Perdida" (Biblioteca Azul; trad. Mauricio Santana Dias; 476 págs.; R$ 49,90), o último volume, um fio de afeto e amor verdadeiro une e afasta as duas vidas.
Chegar às últimas linhas costuma ser um processo adiado, e a sensação final é a de que nos separamos de pessoas que aprendemos a amar. Pode-se, então, voltar ao começo desse quarto e último volume: "A partir de outubro de 1976 até 1979, quando voltei a morar em Nápoles, evitei restabelecer uma relação estável com Lila. Mas não foi fácil. Ela procurou quase imediatamente entrar mais uma vez à força em minha vida, e eu a ignorei, a tolerei, a suportei". Vão-se os maridos, os filhos e os amantes, uma vai embora e volta, a outra nunca sai do lugar, e mesmo assim a amizade permanece, disfarçada em desconforto e desprezo.
Lenu deixa Nápoles, mas Nápoles, a cidade da Camorra, da devastação do pós-guerra, do machismo indomável, da bagunça que remete ao caos do universo, não sai de dentro dela. Temos aqui o final de seis décadas de história da filha de um funcionário público e da filha de um sapateiro, um romance de formação de mais de 1,5 mil páginas que bate em diversas teclas, uma delas, talvez uma das principais, a da identidade.
Eis aí uma viagem surpreendente para os leitores de nosso tempo, desacostumados a grandes cargas de concentração. E aí nos vemos, de repente, imersos num "romanção" como já não se esperava mais: profundo, movido por ideias desafiadoras e imensos contrastes narrativos. Tarde demais. A voz misteriosa e familiar de Elena Ferrante já nos arrastou para dentro do céu e do inferno de Nápoles, sem perdão.

domingo, 16 de outubro de 2016

Meus "metodos" de leitura (tenho algum?) - Paulo Roberto de Almeida

Meus "métodos" de leitura...

Paulo Roberto de Almeida 

Não tenho propriamente “um” método de leitura, ou melhor tenho vários, flexíveis, adaptáveis às circunstâncias de tempo e lugar, de conforto e luminosidade, de pressa ou urgência, e, last but not the least, em função da natureza e da “grossura” (isto é, do volume) do livro.

Nos tempos da brilhantina, isto é, na era pré-computador, eu mantinha vários cadernos de leitura, geralmente quadriculados (são os que apresentam maior densidade de escritura por centímetro quadrado), nos quais eu ia anotando minhas leituras, fazendo transcrições de trechos das obras, agregando meus comentários críticos, enfim, guardando resumos para utilização futura. Eu tinha um caderno para cada área de conhecimento: sociologia, antropologia, história, problemas brasileiros (vários cadernos), marxismo, filosofia etc. Tomava o cuidado de encapá-los e até de fazer um índice. Eles me foram de uma preciosa ajuda quando da elaboração da tese de doutoramento.

Mas esse método é útil quando se tem a sorte de ser estudante em tempo integral, quando se pode passar dias e dias em bibliotecas agradáveis, percorrendo estantes, ou quando se está no recesso do lar, sem maiores obrigações do que as propriamente acadêmicas. Na vida profissional, a disponibilidade para leituras cuidadosamente anotadas se torna mais rara. Por isso, fui também adquirindo o hábito de fazer breves anotações em cadernetas pequenas, geralmente uma referência ou outra para registro rápido e lembrança futura, esperando que a oportunidade para a "grande leitura anotada" possa vir algum dia (que ilusão!).

Na era do computador, passei obviamente a fazer os registros diretamente em arquivos de texto, organizando as minhas leituras e anotações em pastas eletrônicas, divididas por assuntos (dezenas deles), numa grande pasta chamada de “Working”. Tenho centenas, provavelmente milhares de “working files”, esperando nova consulta no computador. De toda forma, quando preciso de algo, basta fazer um “search” no meu computador – agora no sistema “Spotlight” da Apple – e encontro coisas fantásticas, que nem eu mesmo suspeitava existir e das quais não me lembrava mais.

Não preciso dizer que estou lendo o tempo todo, de manhã, de tarde, no almoço, na janta, de noite, de madrugada e nos intervalos também, às vezes até dirigindo o carro (o que sinceramente não recomendo a ninguém). Só não leio durante a ducha porque ainda não inventaram livros impermeáveis, mas os “audio-books” podem ser uma solução a isto (mas ainda não encontrei Max Weber ou Adam Smith em audio).

Agora que desisti de fazer grandes leituras anotadas, leio rápido, muito rápido mesmo, pois minha grande familiaridade com os livros me habilitou a ler aquilo que é relevante em cada livro, de maneira a “liquidar” com um volume em muito pouco tempo, e nele selecionar aquilo que interessa de fato na obra, para apresentação a outros.

Sim, devo dizer que sempre estou lendo com o propósito de fazer alguma resenha, o que é uma maneira prática de ir realmente ao essencial do livro, e de me obrigar a acompanhar o que se publica de mais importante em minhas áreas de interesse.

Voilà, o que escrevi acima pode não ser uma exposição metodológica muito adequada para outros candidatos a leituras intensas, mas representa o meu método anárquico de leitura e de registro do conteúdo dos livros. Espero que seja útil...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 18 dezembro 2005

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Por que leio tanto?; Meus metodos de leitura - Paulo Roberto de Almeida (2005)

Dois textos antigos mas que ainda se mantêm...


Por que leio tanto? e Meus “métodos” de leitura...

Paulo Roberto de Almeida
Para inserção no Blog PRA:

1) Por que leio tanto?
Eis uma boa pergunta, à qual não sei sinceramente responder.
Ou talvez sim, mas aí eu teria de confessar algum pecado original, alguma malformação de nascimento, algum vício adquirido na infância, alguma perversão adolescente e vários crimes reincidentes na idade adulta, sendo que, nesse caso, os psicanalistas de plantão me mandariam logo para alguma cura de emergência ou mesmo um internamente psiquiátrico (o que não seria mau, pois suspeito que disporia de mais tempo ainda para ler...).
Deve ser, realmente, por algum defeito de material, mas talvez seja apenas essa "gentil loucura", de que falam vários amantes de livros, que geralmente têm orgulho em ostentá-la.
No meu caso, não sei dizer ao certo, e nem procuro ostentar muito essa minha deformação congênita pelos livros (o que, aliás, estou fazendo agora mesmo), pois não tenho nenhum culto especial pelos livros, tendendo antes a vê-los primordialmente como ferramentas do saber, como um instrumento de capacitação técnica, como um ajutório no aprendizado, enfim, como uma alavanca para minha capacitação profissional e intelectual.
Sim, devo confessar que leio mais para aprender, e utilizar esse novo saber, do que para simples deleite, como descanso, hobby ou puro prazer intelectual, o que deve ser um outro defeito meu. Acabo, assim, deixando de lado (para futura leitura, tendo a acreditar, o que pode ser uma auto-ilusão) livros "normais! literatura, preferindo os de estudo, os ensaios acadêmicos, os de atualidade e de debate.
Que vou fazer? Ninguém é perfeito...
Em todo caso, não tenho uma resposta simples a essa pergunta. Vou pensar no caso.
Na espera de formular uma resposta adequada, pretendo tratar, em próxima postagem, dos meus "métodos" de leitura...
(18 dezembro 2005)

2) Meus “métodos” de leitura...
Não tenho propriamente “um” método de leitura, ou melhor tenho vários, flexíveis, adaptáveis às circunstâncias de tempo e lugar, de conforto e luminosidade, de pressa ou urgência, e, last but not the least, em função da natureza e da “grossura” (isto é, do volume) do livro.
Nos tempos da brilhantina, isto é, na era pré-computador, eu mantinha vários cadernos de leitura, geralmente quadriculados (são os que apresentam maior densidade de escritura por centímetro quadrado), nos quais eu ia anotando minhas leituras, fazendo transcrições de trechos das obras, agregando meus comentários críticos, enfim, guardando resumos para utilização futura. Eu tinha um caderno para cada área de conhecimento: sociologia, antropologia, história, problemas brasileiros (vários cadernos), marxismo, filosofia etc. Tomava o cuidado de encapá-los e até de fazer um índice. Eles me foram de uma preciosa ajuda quando da elaboração da tese de doutoramento.
Mas esse método é útil quando se tem a sorte de ser estudante em tempo integral, quando se pode passar dias e dias em bibliotecas agradáveis, percorrendo estantes, ou quando se está no recesso do lar, sem maiores obrigações do que as propriamente acadêmicas. Na vida profissional, a disponibilidade para leituras cuidadosamente anotadas se torna mais rara. Por isso, fui também adquirindo o hábito de fazer breves anotações em cadernetas pequenas, geralmente uma referência ou outra para registro rápido e lembrança futura, esperando que a oportunidade para a “grande leitura anotada” possa vir algum dia (que ilusão!).
Na era do computador, passei obviamente a fazer os registros diretamente em arquivos de texto, organizando as minhas leituras e anotações em pastas eletrônicas, divididas por assuntos (dezenas deles), numa grande pasta chamada de “Working”. Tenho centenas, provavelmente milhares de “working files”, esperando nova consulta no computador. De toda forma, quando preciso de algo, basta fazer um “search” no meu computador – agora no sistema “Spotlight” da Apple – e encontro coisas fantásticas, que nem eu mesmo suspeitava existir e das quais não me lembrava mais.
Não preciso dizer que estou lendo o tempo todo, de manhã, de tarde, no almoço, na janta, de noite, de madrugada e nos intervalos também, às vezes até dirigindo o carro (o que sinceramente não recomendo a ninguém). Só não leio durante a ducha porque ainda não inventaram livros impermeáveis, mas os “audio-books” podem ser uma solução a isto (mas ainda não encontrei Max Weber ou Adam Smith em audio).
Agora que desisti de fazer grandes leituras anotadas, leio rápido, muito rápido mesmo, pois minha grande familiaridade com os livros me habilitou a ler aquilo que é relevante em cada livro, de maneira a “liquidar” com um volume em muito pouco tempo, e nele selecionar aquilo que interessa de fato na obra, para apresentação a outros.
Sim, devo dizer que sempre estou lendo com o propósito de fazer alguma resenha, o que é uma maneira prática de ir realmente ao essencial do livro, e de me obrigar a acompanhar o que se publica de mais importante em minhas áreas de interesse.
Voilà, o que escrevi acima pode não ser uma exposição metodológica muito adequada para outros candidatos a leituras intensas, mas representa o meu método anárquico de leitura e de registro do conteúdo dos livros. Espero que seja útil...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 18 dezembro 2005


3) Apresentação ao Blog Textos PRA (http://textospra.blogspot.com/):
Uma vez que me dizem que no cyberspace, ao contrário do que acontece no mundo da economia real, existe, sim, almoço grátis, e que o número de blogs que você pode ter é praticamente infinito, a custo quase zero (não computado o tempo dedicado a este infernal instrumento de comunicação), pretendo dedicar este novo blog a textos diversos, e nele colocar tanto material de minha lavra como produções de terceiros.
O objetivo é esse mesmo: o de disseminar de modo relativamente fácil um série de textos que de outra forma ficariam "escondidos" em algum site qualquer, o meu próprio ou de outros. No blog eles também ficam escondidos, mas como é mais fácil de acessar e alimentar este tipo de ferramenta do que um site "normal", ele apresenta todas as características de flexibilidade e maneabilidade para me permitir ir "depositando" uma série de materiais que podem apresentar interesse para o mundo acadêmico ou mesmo para alguma atividade profissional.
Espero que ele seja útil a todos aqueles que buscam algum texto de interesse, a começar por mim mesmo.
Como o índice do próprio Blog é limitado a dez "postagens", pretendo elaborar um índice cronológico e deixá-lo à disposição dos interessados em posição de destaque (ou quem sabe até, quando isso se fizer necessário, em um novo blog, só de índices remissivos). Afinal de contas, ao contrário da economia real, os blogs constituem, até aqui, "almoço grátis"...

Brasília, 18 de dezembro de 2005
(Postado com data de 14 de dezembro)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Across the Empire (7): leituras no velho Oeste - Paulo Roberto de Almeida


Crossing the Empire, 2014 (7): de Denver a Cody
Leituras no Velho Oeste

Paulo Roberto de Almeida

            A jornada desta quarta-feira 3 de setembro, toda ela consumida no trajeto entre Denver, Colorado, e Cody, Wyoming, não teve nada de excepcional, a não ser por um traço do caráter americano que revela um pouco do espírito que presidiu à construção desta nação, com base primeiro na própria sociedade, depois, muito depois, no Estado.
            Digo que não teve nada de excepcional pois o dia foi de viagem, um pouco menos de 500 milhas para sair de um estado e entrar em outro, parando numa pequena cidade que também homenageia o Buffalo Bill (ele está em todas as partes por aqui), quase às portas de nosso segundo objetivo principal: o parque nacional do Zé Colmeia, digo, de Yellowstone, imortalizado num desenho animado que frequentou a infância de milhões de crianças de nossa geração. Não sei onde anda atualmente o Zé Colmeia, e provavelmente o autor dos desenhos já faleceu, mas se deve apenas a ele nossa vinda a um parque natural, que de ordinário não comparece em nosso turismo cultural e citadino. Mas, teve sim, algo excepcional, e vou tratar unicamente disso nesta postagem.
            No meio do caminho entre Denver e Cody está Cheyenne, capital do estado cowboy do Wyoming, onde já tínhamos estado no ano passado, mas totalmente por acaso, pois que simplesmente por um desvio imposto pela natureza: nosso trajeto vindo do centro dos EUA, Missouri, Kansas City, deveria nos levar a Denver, e depois a Boulder, antes de seguir viagem para o Utah, Salt Lake City, terra dos mórmons, onde estivemos efetivamente, mas tendo de fazer um desvio pelo norte, pelos estados do Nebraska e Wyoming, justamente. A razão foram chuvas torrenciais, justo quando estávamos no Missouri, que destruíram estradas, arrastaram casas, ceifando algumas dezenas de vidas e arrasando completamente o vale do rio North Platte. Em face da tragédia, tivemos de desistir do Colorado, e por isso fomos a Omaha, Lincoln, Cheyenne, Ogalalla, e outras cidades do roteiro cowboy.
            Desta vez, como já tínhamos visitado o centro de Cheyenne, nos dedicamos a um museu que tinha ficado apenas nos registros em 2013: do velho Oeste. Pois chegamos lá em torno do meio dia, dedicando mais de uma hora a este simpático museu, que aparece nesta foto que fiz, atrás da escultura do vaqueiro domando um cavalo. 


O edifício é bem maior do que aparece na foto, tão grande que perdi um boné que havia comprado no ano passado no rancho do Jack London, em Sonoma, na Califórnia. Tive de comprar outro, no próprio museu, importante para dirigir no final da tarde, na direção oeste, quando o sol do final da tarde bate bem na frente do carro.
Mas, além dos cowboys, também encontrei uma cowgirl, com um lindo chapéu de vaqueira, rosado, que se deixou fotografar para a ocasião. Espero que ela goste...


Também me fiz fotografar por Carmen Lícia, em frente a esta típica carruagem de transporte de passageiros, muito parecida com aquelas que todos já vimos em filmes de Hollywood sobre o velho oeste, justamente.


Mas o que mais me chamou a atenção foi esta peça que, como disse ao início, retrata o espírito de um povo, um povo que se fez pela democracia de aldeia, na base, não aquela superestrutural como conhecemos nós, que parte do princípio da organização do Estado, com seus poderes, etc. 

Nos EUA, a democracia é um mores, um costume social, um hábito de vida, algo que começa pela eleição do xerife (vimos vários cartazes pedindo votos para um e outro candidato a sheriff, cada vez que entrávamos num novo condado), pela eleição do juiz, as duas bases do poder local, e depois se estende ao conselho de pais e mestres da escola (em todos os lugares, mesmo os mais recuados, podemos cruzar com os ônibus amarelos transportando escolares, de manhã e de tarde), e que explica o grau de desenvolvimento social dos EUA, independentemente das desigualdades sociais, e da segregação racial, que são dois outros traços da sociedade.
Esta peça é uma livraria ambulante, a primeira do condado de Laramie, uma cidade próxima de Cheyenne. Fiz algumas fotos para ilustrar a importância que assume a leitura, os livros, a cultura de forma geral, na sociedade protestante original dos EUA.



Como disse Monteiro Lobato (não pretendendo obviamente ser sexista): “um país se faz com homens e livros”. Não importa se ele estava querendo vender mais livros da sua recém criada Companhia Editora Nacional: é um fato que um país se faz basicamente com conhecimento acumulado, do que se encontra nos livros. Em todo os EUA nos deparamos com pessoas lendo em todas as circunstâncias, nas mais pequenas cidades sempre existe uma biblioteca pública, e nós mesmos, Carmen Lícia e eu, frequentamos duas, em Hartford e em West Hartford, muito boas, por sinal. Posso ler todos os mais novos lançamentos, sem precisar comprar nas livrarias comerciais, e antes de me decidir por encomendá-lo novo ou usado (em três meses ele estará praticamente novo na rede de sebos que mais uso, a Abebooks).
O museu é uma joia da cultura cowboy e da fronteira, com seu kitsch, e seus traços profundamente humanos. Fiz fotos de algumas obras de arte também, mas termino por esta paródia musical em forma de pintura: um cowboy com sua guitarra sendo unanimemente acompanhado por uma plateia atenta e participativa. O quadro se chama, apropriadamente, Standing Bovation..., uma ovação merecida, sem dúvida.


Amanhã, ou melhor, hoje, dentro de algumas horas, vamos a Yellowstone. Não sou muito chegado a bichos e natureza, preferindo, como Carmen Lícia, as cidades e a cultura, mas como está no caminho...
Paulo Roberto de Almeida
Cody, 4 de setembro de 2014

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Educacao: ensine seus filhos a ler precocemente

Não conheço o método e não posso testemunhar quanto à sua eficácia. Mas valorizo toda e qualquer iniciativa de leitura e de aprendizado em idade precoce, pois os livros sempre libertam das idiotices cotidianas dos grandes meios de comunicação.
Paulo Roberto de Almeida 
Boletim Olavo de Carvalho: Ensine seus filhos a ler

Prezado leitor

Há vários meses, o professor Olavo vem recomendando os vídeos do Carlos Nadalim. E hoje nós vamos recomendar o seu curso, “Ensine seus filhos a ler – pré-alfabetização”.

Não é segredo para ninguém que a educação no Brasil foi simplesmente destruída. No ano passado, uma pesquisa feita pelo Instituto Paulo Montenegro revelou que 75% dos brasileiros não sabem ler de maneira eficiente. No início desse ano, outra pesquisa, realizada pela Universidade Católica de Brasília, mostrou que 50% dos estudantes universitários sofrem de analfabetismo funcional. Essas pesquisas não tratam de pessoas que nunca passaram pelos bancos escolares, e sim de analfabetos funcionais, isto é, de pessoas que receberam uma educação escolar formal, mas que nunca conseguiram transformar a leitura em um instrumento de aprendizagem. Isso significa que os estudantes brasileiros passam 12 anos na escola e entram numa universidade sem saber ler!

São muitas as causas do fracasso escolar brasileiro. Mas a mais importa delas é a adoção das pedagogias sócio-construtivistas e dos métodos de alfabetização ineficazes, que estupidificam tanto os alunos quanto os professores. O sistema educacional brasileiro, há duas décadas, não consegue mais ensinar uma criança a ler. A escola hoje em dia só serve para formar militantes esquerdistas, para encher a cabeça das crianças de ideologia de gênero, gayzismo, abortismo e outros itens que compõem a agenda politicamente correta, conforme já explicou várias vezes o professor Olavo.

O prof. Carlos Nadalim é aluno do Curso de Filosofia de Olavo de Carvalho e, inspirando nos ensinamentos do professor Olavo, ele desenvolveu um método de alfabetização altamente eficaz, que já foi aplicado com sucesso na educação de uma centena de crianças. Por meio de seu curso online, o prof. Carlos também já treinou outra centena de pais nesse método. O segredo do método é uma série de atividades estruturadas de pré-alfabetização, destinadas a crianças de 2 a 5 anos, que desenvolvem as competências cognitivas necessárias para a formação de um bom leitor. Além dos exercícios e técnicas para a pré-alfabetização, o curso oferece alguns bônus sobre educação musical, psicomotricidade, bilingüismo, harmonia familiar e afetividade infantil.

Portanto, se você tem filhos ou pretende tê-los um dia, ou se é responsável pela educação de crianças, não pode perder esse curso! As inscrições começam hoje e vão até a próxima terça-feira. Porém, como as vagas são limitadas, elas podem ser encerradas muito antes. Por isso, fique atento!

O curso durará 90 dias. Como ele é totalmente online, as aulas ficarão disponíveis para download, e você poderá seguir as lições de acordo com seu próprio ritmo.

Para saber mais sobre o conteúdo do curso, seu funcionamento, valor e como se inscrever, veja o vídeo acessando este link: http://goo.gl/N4nyts. O botão de inscrição deverá aparecer quando o vídeo passar de um minuto.

A primeira aula do curso ocorrerá na próxima quarta-feira, dia 25 de junho.
Não perca essa oportunidade, garantindo o quanto antes a sua vaga!

Abraços
Silvio Grimaldo
Editor do Boletim Olavo de Carvalho e do Seminário de Filosofia.

sábado, 7 de junho de 2014

Filosofalhas e literatolices dos tempos em que vivemos - Carlos U Pozzobon

21 de maio de 2014

Você é aquilo que lê

Desabafos sobre filosofalhas e literatolices dos tempos em que vivemos

Carlos U Pozzobon
Que todos conhecem a desgraceira de nossa vida política, não é preciso comentar. O que precisamos entender é a relação de uma sociedade de corte estatal com a cultura, em que o mérito sempre esteve seriamente comprometido com as cotas destinadas à proteção dos tolos, dos despojados de energia intelectual, dos fraquinhos, dos frívolos inseridos no processo de produção cultural ― marca indelével de um país contaminado pela corrupção intelectual, que consiste no espírito de rebanho em aderir à onda produzida pelas calamidades elevadas ao pedestal da glória ― causa maior e mais aviltante do que a corrupção moral em que chafurdamos. Quando uma Academia de Letras homenageia Ronaldinho Gaúcho com uma medalha de mérito, quando universidades distribuem títulos de doutor honoris causa a um apedeuta, podemos entender por que tanta gente expressa suas preferências por autores com obras vazias de conteúdo estético e artístico.
São essas cotas de literatolice que transformam autores sem conteúdo em celebridades nacionais e internacionais, confundindo o leitor eventual que ainda não tem um gosto consolidado, ou que não dispõe das ferramentas de análise do crítico. Supostamente deve ser a principal razão para que a leitura seja afinal considerada um sofrimento pela maioria dos brasileiros, e por sua inclinação à brevidade do jornal e da revista em lugar do livro.
Escravo do “ouvir dizer”, da fama turbinada pelas editoras “do mercado” (espécie de “seguimento da deseducação geral do país”), e de colunas de revistas, o brasileiro lê com sofreguidão o que lhe dizem que é bom, e procura fugir como o diabo da cruz do próximo bestseller, até que, forçado pela necessidade de inserção social, volta a porejar o sacrifício da leitura, o que o impede de evoluir intelectualmente para apurar seu gosto para os refinamentos mais sutis das formas de expressão, para o deleite eriçante da beleza da linguagem, ou para a compreensão do sublime ou do paradoxal, do poético ou do assombro que só o escritor erudito e talentoso pode proporcionar.
Dependente do padrão alienígena, em uma sociedade cujos valores mais cultivados são a imitação do estrangeiro, cativo das opiniões de membros de instituições avacalhadas difundidas incansavelmente, o leitor comum nunca desenvolverá a sensibilidade para contestar aquilo que a maioria consagra como grande autor. E esta deformidade atravessa as décadas com a mesma constância e uniformidade de nossa imutável realidade social, acorrentada nas tradições desesperadoramente retrógradas.
Quem lê a avassaladora crítica de Sylvio Romero ao espírito limitado de José Veríssimo, em Zeverissimações Ineptas da Crítica – Repulsas e Desabafos, percebe claramente a diferença abissal entre o erudito e o convencional, e entende muito bem por que somos uma sociedade onde a mediocridade tem um lugar garantido no triunfo das corriolas paroquianas, da crítica sem profundidade, do aceito sem controvérsias, para vislumbrar a amorfia que causa a repulsa ao próprio gênio da brasilidade que as instituições têm por missão instigar, pois nem sequer sabem como fazê-lo. Nossa sociedade está tão aviltada intelectualmente que perdeu os sensores que emitem os sinais de alerta para a chegada do mais dotado, para a presença catalítica dos melhores. Vive o entorpecimento de seu próprio contexto de servidão institucional.

Leia o texto completo neste link: 
http://ensaioseducativos.blogspot.com.br/2014/05/voce-e-aquilo-que-le.html

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A felicidade se encontra em coisas simples, como a leitura, por exemplo - Paulo Roberto de Almeida

Reflexão sobre a felicidade a partir de coisas simples...

Paulo Roberto de Almeida

“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”
Cora Coralina, poeta de Goiás (1889-1985)

Tomei conhecimento tardiamente da frase acima de Cora Coralina e, quando dela me “apossei”, constatei que outros milhares de leitores, um tribo imensa de curiosos, professores e candidatos a poetas já a tinham incorporado em centenas de outras citações, provavelmente esparsas e incompletas. O Google “devolveu” 107 mil resultados para uma busca com essas palavras entre aspas, o que descontando as inúmeras repetições consolida, ainda assim, vasto repositório de citações de uma frase simples e no entanto imensamente poética e cativante.
Creio, como muitos outros antes de mim, que a felicidade pode estar justamente nesse ato de ensino-aprendizado, que de fato me parece uma dupla atividade, nos dois sentidos captados pela poeta de Goiás velho. Sempre aprendemos algo tentando ensinar alguma coisa a outras pessoas, pois a própria atividade docente constitui um aprendizado constante. Eu pelo menos estou sempre lendo algo para melhorar minhas aulas, trazendo novos materiais em classe, enviando artigos aos alunos, esforçando-me para que eles consigam superar o volume forçosamente limitado daquilo que é humanamente possível transmitir em sala de aula.
Eu me permitiria acrescentar à singela constatação da poeta goiana uma outra fonte de felicidade, que aliás está implícita no seu sentido do ensino: o hábito da leitura. Aproveito para transcrever uma outra frase, de um escritor e dramaturgo conhecido, autor reputado popular, ainda que personalidade sabidamente complicada:
“Eu não tenho o hábito da leitura. Eu tenho a paixão da leitura. O livro sempre foi para mim uma fonte de encantamento. Eu leio com prazer e com alegria”. Ariano Suassuna.
Creio poder dizer que eu não tenho apenas a paixão da leitura. Talvez minha atitude esteja mais próxima da obsessão, da compulsão, um verdadeiro delirium tremens na fixação do texto escrito, qualquer que seja ele, do mais simples ao mais elaborado. Quando digo obsessão, não pretendo de forma alguma referir-me a algo doentio, fora de controle, pois sou absolutamente calmo e controlado em minhas visitas a livrarias e bibliotecas: contemplo com calma cada lombada ou capa e apenas ocasionalmente retiro um livro para consultar seu interior. Não me deixo dominar pelos livros e de forma alguma sou um bibliófilo ou mesmo um colecionador de livros. Na verdade, não consigo me enquadrar em nenhuma categoria dessas que supostamente compõem o mundo dos amantes de livros.
Para começar, não tenho nenhum respeito pelos livros, nenhuma devoção especial, nenhum cuidado em manuseá-los ou guardá-los (muito mal, por sinal, pois acabo me perdendo na selva de livros que constitui minha caótica biblioteca, se é que ela merece mesmo esse título). Os livros, para mim, são objetos de uso, de consumo, de manuseio indiferente, eles só valem pelo seu conteúdo, como instrumentos de aquisição de um saber, que este sim, eu reputo indispensável a uma vida merecedora de ser vivida.
Não hesitaria um só instante em trocar todos os meus livros por versões eletrônicas, se e quando esse formato se revelar mais cômodo e mais interessante ao manuseio e leitura. Não hesito em sacrificar um livro se devo lê-lo em condições inadequadas, pois o que vale é o que podemos capturar em seu interior, não sua aparência externa ou sua conservação impecável. Ou seja, não sou um colecionador de livros, sou um “colhedor” de leituras, um agricultor da página impressa, um cultivador do texto editado, eventualmente também um semeador de conhecimento a partir dessas leituras contínuas.
De fato, o que me permite ser professor, resenhista de livros (tudo menos profissional, já que só resenho os livros que desejo) e, talvez até, um escrevinhador contumaz, antes que de sucesso, é esse hábito arraigado da leitura ininterrupta, em toda e qualquer circunstância, para grande desespero de familiares e outros “convivas”. Estou sempre lendo, algumas vezes até quando dirijo carro – o que, sinceramente, não recomendo –, mas ainda não encontrei um livro impermeável à água para leitura na ducha (na banheira seria mais fácil, mas não tenho paciência para esse tipo de prática).
Creio que a felicidade pode ser encontrada nesse tipo de coisas simples: um bom livro, uma boa música, um ambiente acolhedor, um sofá confortável, o que, confesso, raramente acontece comigo. Acabo lendo na mesa do computador, segurando o livro com a perna e teclando de modo desajeitado ao anotar coisas para registro escrito do que li. Aliás, as duas mesas de trabalho que existem em meu escritório, já não comportam mais nenhum livro: as pilhas se acumulam dos dois lados do teclado, e a outra mesa já está alta de jornais, revistas e livros, muitos livros, que também se esparramam pelo chão, como as batatinhas daquele poema infantil.
Leitor anárquico que sou, tenho livros em processo de leitura espalhados pelos diversos cômodos da casa, um pouco em todas as partes, novamente para desespero dos familiares. Não creio que  venha a mudar agora esses maus hábitos. O que me deixa mesmo pensativo é a dúvida sobre quantos anos ainda terei pela frente para “liquidar” tod os os livros (meus e de outras procedências), que aguardam leitura. Preciso de mais 80 ou 100...
       

Brasília, 1838: 19 novembro 2007